Dia das mães. Comércio em festa. Segunda maior venda do ano, só perde pro Natal. Data comemorada e lembrada com tristeza por aqueles que já perderam as suas. Tempo de reflexão. Mas afinal de contas, o que é uma mãe?
Alguns dizem que mãe é aquela que cria, outros que mãe é avó. Outros vão ainda dizer que mãe é aquela que faz. Concordo, mãe é aquela que faz... mas faz o que? Que faz o filho, literalmente? É aquela que gera? Que empresta o óvulo? Que faz doação?
Acredito que essa discussão possa ir longe, muito longe, tão longe quanto a imaginação deixar levar. Imaginação que não falha pra quem teve mãe, pra quem foi investido, pra quem se deixou fazer objeto, alienar pra finalmente se separar. Imaginário... imaginário que falha tanto na psicose, que só aliena.
Mais do que quem doa o óvulo, mais do que quem empresta a barriga, mais do que gestar. Gestar, parece até tarefa fácil pra algumas que aparecem como notícia no Jornal Nacional. Gestar sem investir é menos, gestar sem envolvimento é menos, doar a célula é menos. Gastar sem investir é menos, mas investir sem gastar, é mais. É tirar a cifra e colocar desejo. É se ver não faltante quando lança o olhar pra essa criança, é se ver plena, mesmo faltante; é se encantar com a barriguinha, com o pezinho, é se divertir com as descobertas, é encontrar ali, o seu objeto de amor, seu “tudo” mesmo que só por um pouco de tempo.
Mãe, primeiro amor de todos nós. Aconchego que a gente quer sentir de novo, de novo e de novo. Traço que marca e que a gente percorre o mundo pra sentir aquela satisfação de novo. Aquele “sou tudo pra você”. Um tudo que não é todo. Pulsão, pulsão, pulsão.
Aquela que instala a pulsão, que nos deixa desejantes, que nos faz sujeitos.
Que nos aliena no seu amor, pra separar e finalmente, a gente voltar sempre que desejar.
domingo, 8 de maio de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
www.semespaço.com
Adoro a internet. Consultas, dúvidas esclarecidas, novidades, troca de informação.
Tantos resultados com a velocidade de menos 0,034625 segundos. Fantástico.
Hoje, tudo acontece tão rápido que não dá nem tempo de surgir a dúvida. Surgiu até um novo verbo: googlear. Alguém pergunta: “você sabe a velocidade do vôo das andorinhas?” e alguém responde: “dá um Google!”. Simples assim.
É, a vida mudou. No meu tempo de Ensino Fundamental, eu fazia minhas pesquisas nos livros da escola e na coleção linda da Barsa e Mirador que meus pais tinham/tem em casa. Era o meio mais confiável e prático de adquirir informações. De repente.... Mágica. Surgiu a Enciclopédia Digital. Toda aquela coleção imensa, que enfeitava / enfeita a estante, cabia em um CD. Excelente. Passei a fazer minhas consultas então, na enciclopédia digital.
O detalhe é que tanta facilidade e prontidão parecem ter diminuído a dificuldade e aumentado a urgência. A gente pensa nisso, faz aquilo, rápido, rápido, rápido.... e se o computador estragar: caos total e absoluto. Todo técnico em informática escuta essas palavrinhas: “NÃO POSSO FICAR SEM COMPUTADOR!”. Queixa geral de qualquer pessoa que tenha um computador. Com puta dor. Interessante.
Acabou a latência. Aquele período de espera, onde as coisas estão se elaborando, se preparando no simbólico. Os professores pra explicar isso, diziam que latência era o período de tempo que demorava para um dinossauro que teve a calda machucada sentir o estímulo da dor no cérebro. É esse tempo de “meia pausa”, onde há elaboração e preparo.
Todo mundo corre tanto hoje, que exige respostas imediatas, agilidade, rapidez e se não for pedir muito... perfeição.
Se perde alguém da família, tem que “tocar o barco”, se livrar dos pertences da pessoa que se foi, de preferência no dia seguinte ao enterro, se acabou um relacionamento o negócio é engatar outro ou outros, se tá fazendo o curso preparatório precisa ir direto pra universidade, se saiu da universidade precisa estar ganhando horrores, bem empregado. Sem intervalo, semespaço.
Dizem que o mal-estar da nossa civilização, diferente daquele que Freud fala, do homem cindido, onde disse pra Jung em sua viagem de barco: “mal sabem eles, que trazemos a peste”, veio o homem com o antídoto, centrado no Ego, onde tudo isso, essa pressão pra se realizar, realizar, realizar é tida muitas vezes com o nome de auto-estima. “você precisa se valorizar, hein?”. Uma valorização inconsistente muitas vezes, onde somos tomados pelo que nos afronta e criamos ali uma barreira, calo, escudo.
É claro que precisamos nos valorizar. Sempre. Ponto fundamental no narcisismo, impossível investirmos na vida sem investirmos em nós mesmos. Ponto oposto ao da melancolia, onde as forças são esvaídas. Pois diferente daquele mal-estar, o nosso mal estar do século XXI é apontado justamente como o tédio e a solidão. Curioso. Com os sites de relacionamento “bombando”, e a velocidade da informação chegando a 30 MB; tédio.
Semespaço pra olhar dentro de nós, nos enxergarmos faltantes, cindidos. Interessante também como nos endereços cibernéticos, não há espaço entre as palavras. Ficamos semespaço.com .
Saber que a gente pode procurar e procurar e acreditar que existe “ao menos um” que vai me deixar completo ou completa, mas saber que além de toda completude, existe uma hiância, um espaço, que mesmo semespaço, vai continuar espaçado.
Tantos resultados com a velocidade de menos 0,034625 segundos. Fantástico.
Hoje, tudo acontece tão rápido que não dá nem tempo de surgir a dúvida. Surgiu até um novo verbo: googlear. Alguém pergunta: “você sabe a velocidade do vôo das andorinhas?” e alguém responde: “dá um Google!”. Simples assim.
É, a vida mudou. No meu tempo de Ensino Fundamental, eu fazia minhas pesquisas nos livros da escola e na coleção linda da Barsa e Mirador que meus pais tinham/tem em casa. Era o meio mais confiável e prático de adquirir informações. De repente.... Mágica. Surgiu a Enciclopédia Digital. Toda aquela coleção imensa, que enfeitava / enfeita a estante, cabia em um CD. Excelente. Passei a fazer minhas consultas então, na enciclopédia digital.
O detalhe é que tanta facilidade e prontidão parecem ter diminuído a dificuldade e aumentado a urgência. A gente pensa nisso, faz aquilo, rápido, rápido, rápido.... e se o computador estragar: caos total e absoluto. Todo técnico em informática escuta essas palavrinhas: “NÃO POSSO FICAR SEM COMPUTADOR!”. Queixa geral de qualquer pessoa que tenha um computador. Com puta dor. Interessante.
Acabou a latência. Aquele período de espera, onde as coisas estão se elaborando, se preparando no simbólico. Os professores pra explicar isso, diziam que latência era o período de tempo que demorava para um dinossauro que teve a calda machucada sentir o estímulo da dor no cérebro. É esse tempo de “meia pausa”, onde há elaboração e preparo.
Todo mundo corre tanto hoje, que exige respostas imediatas, agilidade, rapidez e se não for pedir muito... perfeição.
Se perde alguém da família, tem que “tocar o barco”, se livrar dos pertences da pessoa que se foi, de preferência no dia seguinte ao enterro, se acabou um relacionamento o negócio é engatar outro ou outros, se tá fazendo o curso preparatório precisa ir direto pra universidade, se saiu da universidade precisa estar ganhando horrores, bem empregado. Sem intervalo, semespaço.
Dizem que o mal-estar da nossa civilização, diferente daquele que Freud fala, do homem cindido, onde disse pra Jung em sua viagem de barco: “mal sabem eles, que trazemos a peste”, veio o homem com o antídoto, centrado no Ego, onde tudo isso, essa pressão pra se realizar, realizar, realizar é tida muitas vezes com o nome de auto-estima. “você precisa se valorizar, hein?”. Uma valorização inconsistente muitas vezes, onde somos tomados pelo que nos afronta e criamos ali uma barreira, calo, escudo.
É claro que precisamos nos valorizar. Sempre. Ponto fundamental no narcisismo, impossível investirmos na vida sem investirmos em nós mesmos. Ponto oposto ao da melancolia, onde as forças são esvaídas. Pois diferente daquele mal-estar, o nosso mal estar do século XXI é apontado justamente como o tédio e a solidão. Curioso. Com os sites de relacionamento “bombando”, e a velocidade da informação chegando a 30 MB; tédio.
Semespaço pra olhar dentro de nós, nos enxergarmos faltantes, cindidos. Interessante também como nos endereços cibernéticos, não há espaço entre as palavras. Ficamos semespaço.com .
Saber que a gente pode procurar e procurar e acreditar que existe “ao menos um” que vai me deixar completo ou completa, mas saber que além de toda completude, existe uma hiância, um espaço, que mesmo semespaço, vai continuar espaçado.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
O QUE SOU?
Não sou o que pareço.
Sou o que não pareço.
Penso, logo, existo.
Existo, onde não penso.
Não; sou o que pareço.
Sou o que? Não pareço?
Penso, logo, existo?
Existo onde? Não penso.
Esses dias, escutei alguém dizer: “ando esquecendo de puxar o freio de mão do meu carro”.
Existo, onde não penso. E hesito, onde penso que sei.
O que anda precisando perder o controle? O freio? O que pára?
Freio de mão. Mecânico.
O que está tão mecânico que precisa se deixar levar... ladeira abaixo?
Ato falho.
Ou melhor, ato acertado. Falho talvez esteja sendo aquele que mantém sempre alerta, puxando o freio.
Existo onde não penso. Incoerência entre o que se pensa e o que se faz.
“Foi sem querer, querendo...” Frase de Chaves. Chaves pra abrir que porta?
Freud deu um golpe no narcisismo da humanidade, mostrando que desse modo, o homem perde o poder de Senhor e controlador de suas ações e começa uma busca incessante pela sua verdade inconsciente, que Lacan disse, se manifesta na e pela linguagem através do “unívoco”. Ops... Equívoco. O equívoco sinaliza que o homem nunca consegue dizer com precisão o que realmente sente, pois na linguagem se materializa sua marca de incompleto, de faltante; fazendo-o sempre pensar que ainda não disse tudo. E não disse mesmo. Existo, onde não penso.
Hesito, onde penso que sei. Afinal, "Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, “sem querer“." (FREUD, S.)
Sem querer, querendo.
Sou o que não pareço.
Penso, logo, existo.
Existo, onde não penso.
Não; sou o que pareço.
Sou o que? Não pareço?
Penso, logo, existo?
Existo onde? Não penso.
Esses dias, escutei alguém dizer: “ando esquecendo de puxar o freio de mão do meu carro”.
Existo, onde não penso. E hesito, onde penso que sei.
O que anda precisando perder o controle? O freio? O que pára?
Freio de mão. Mecânico.
O que está tão mecânico que precisa se deixar levar... ladeira abaixo?
Ato falho.
Ou melhor, ato acertado. Falho talvez esteja sendo aquele que mantém sempre alerta, puxando o freio.
Existo onde não penso. Incoerência entre o que se pensa e o que se faz.
“Foi sem querer, querendo...” Frase de Chaves. Chaves pra abrir que porta?
Freud deu um golpe no narcisismo da humanidade, mostrando que desse modo, o homem perde o poder de Senhor e controlador de suas ações e começa uma busca incessante pela sua verdade inconsciente, que Lacan disse, se manifesta na e pela linguagem através do “unívoco”. Ops... Equívoco. O equívoco sinaliza que o homem nunca consegue dizer com precisão o que realmente sente, pois na linguagem se materializa sua marca de incompleto, de faltante; fazendo-o sempre pensar que ainda não disse tudo. E não disse mesmo. Existo, onde não penso.
Hesito, onde penso que sei. Afinal, "Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, “sem querer“." (FREUD, S.)
Sem querer, querendo.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
O DONO DAS MENINAS
Há uma menina ao centro. Infanta Margarida aparenta pouca idade, e com seu olhar altivo, parece pertencer à figura, ou, melhor; parece refletir que é a própria figura. O resto é fundo. E mostra inclusive, o quão comum pode parecer uma tarde de sua vida sendo retratada. Suas amas ao redor, estão a servir-lhe. Uma flor no cabelo, o vestido rodado e principalmente sua postura, mostram sua grandeza. A ama
ao lado a oferece um copo d’água e se abaixa em expressão de humildade e consciência de ocupar um lugar abaixo na hierarquia. Há silêncio e mansidão. O cachorro dorme. Uma das meninas o afaga. Com o pé. Sinal de intimidade. Há um quadro na parede, de Rubens. Há dois que conversam, há alguém ao fundo; este parece conhecer o funcionamento do que acontece e supervisiona.
Este quadro, chamado “As meninas” foi pintado por ninguém menos que Velázquez. Está hoje no museu Del Prado em Madrid. E apesar de infanta Margarida ocupar o lugar central, o quadro leva este nome, pelas amas que estão a rodeá-la. O curioso do quadro é que Velázquez se auto-retrata. Está ali, no cantinho esquerdo, reparando na cena, e dando vida, contorno, luz, reproduzindo e tornando perpétua a obra.
Dizem que Velázquez se incluiu para mostrar seu valor enquanto artista.
Neste ponto, me pergunto quem é o personagem principal deste quadro.
Assim como Velázquez, pintamos nossos quadros todos os dias. Ele reproduzia o cotidiano, nós também. Pintamos vários quadros e o quadro de nossa vida. Numa pintura grande, pode ser por vezes sombria, por vezes clara. Com pessoas que entram e saem, que se curvam como as amas do quadro, e a quem prestamos reverência; por vezes figura, por vezes fundo, com muitas ou poucas cores. Por pintarmos, estamos do lado do espectador. Do lado de quem assiste e muitas vezes nos esquecemos de nos incluir na obra. Pintamos, investimos, desistimos, apagamos, borramos e isso tudo sem autoria. No entanto, quando a gente assume, erros e acertos, isso pode nos deixar mais livres, inclusive pra pintar outros quadros.
Eu sou a dona d’O Dono das Meninas.
Priscila Noro
ao lado a oferece um copo d’água e se abaixa em expressão de humildade e consciência de ocupar um lugar abaixo na hierarquia. Há silêncio e mansidão. O cachorro dorme. Uma das meninas o afaga. Com o pé. Sinal de intimidade. Há um quadro na parede, de Rubens. Há dois que conversam, há alguém ao fundo; este parece conhecer o funcionamento do que acontece e supervisiona.
Este quadro, chamado “As meninas” foi pintado por ninguém menos que Velázquez. Está hoje no museu Del Prado em Madrid. E apesar de infanta Margarida ocupar o lugar central, o quadro leva este nome, pelas amas que estão a rodeá-la. O curioso do quadro é que Velázquez se auto-retrata. Está ali, no cantinho esquerdo, reparando na cena, e dando vida, contorno, luz, reproduzindo e tornando perpétua a obra.
Dizem que Velázquez se incluiu para mostrar seu valor enquanto artista.
Neste ponto, me pergunto quem é o personagem principal deste quadro.
Assim como Velázquez, pintamos nossos quadros todos os dias. Ele reproduzia o cotidiano, nós também. Pintamos vários quadros e o quadro de nossa vida. Numa pintura grande, pode ser por vezes sombria, por vezes clara. Com pessoas que entram e saem, que se curvam como as amas do quadro, e a quem prestamos reverência; por vezes figura, por vezes fundo, com muitas ou poucas cores. Por pintarmos, estamos do lado do espectador. Do lado de quem assiste e muitas vezes nos esquecemos de nos incluir na obra. Pintamos, investimos, desistimos, apagamos, borramos e isso tudo sem autoria. No entanto, quando a gente assume, erros e acertos, isso pode nos deixar mais livres, inclusive pra pintar outros quadros.
Eu sou a dona d’O Dono das Meninas.
Priscila Noro
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
QUE TUDO SE REALIZE
Adeus ano velho, feliz ano novo. Que tudo se realize no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.
Musiquinha quase folclórica, já; no entanto, munida de ótimos desejos. E que o ano comece mesmo, pra valer, com tudo isso.
Muita saúde, porque sem ela, a gente pode ter muito, sem poder usufruir. Vão.
E entra ano, sai ano, a musiquinha nunca sai de moda. É sempre atual. Que tudo se realize no ano que vai nascer. E a gente se pergunta; será que nunca estarei realizado? Será que um dia haverá um ano em que eu não deseje, e que não cante: “que tudo se realize no ano que vai nascer”? Ah, sim... Há de haver algum lugar, um confuso casarão... onde os sonhos serão reais, e a vida... não. Sábio Chico. E nesse dia, a vida... não.
Desejo é sempre desejo de desejo. E é por isso que entra ano e sai ano, “que tudo se realize...”.
Quando a gente encontra aquilo, já é outra coisa. E assim caminha a humanidade, e a pulsão. Dando voltas e contornando os objetos.
Esse ano eu quero um carro. Batalho por ele, conquisto! E ano que vem, eu quero uma casa! Aí, eu quero mudar os móveis, quero casar, eu quero ter um filho, quero ter dois, quero mudar de cidade, quero entrar na faculdade, quero sair, quero reformar a casa, quero adotar, quero separar, quero emagrecer, quero encontrar o par perfeito, quero trocar de carro. De novo.
Dando voltas e realizando. Gozo. Prazer.
Um desejo pode se realizar, nunca se satisfazer.
E que tudo se realize no ano que vai nascer.
Musiquinha quase folclórica, já; no entanto, munida de ótimos desejos. E que o ano comece mesmo, pra valer, com tudo isso.
Muita saúde, porque sem ela, a gente pode ter muito, sem poder usufruir. Vão.
E entra ano, sai ano, a musiquinha nunca sai de moda. É sempre atual. Que tudo se realize no ano que vai nascer. E a gente se pergunta; será que nunca estarei realizado? Será que um dia haverá um ano em que eu não deseje, e que não cante: “que tudo se realize no ano que vai nascer”? Ah, sim... Há de haver algum lugar, um confuso casarão... onde os sonhos serão reais, e a vida... não. Sábio Chico. E nesse dia, a vida... não.
Desejo é sempre desejo de desejo. E é por isso que entra ano e sai ano, “que tudo se realize...”.
Quando a gente encontra aquilo, já é outra coisa. E assim caminha a humanidade, e a pulsão. Dando voltas e contornando os objetos.
Esse ano eu quero um carro. Batalho por ele, conquisto! E ano que vem, eu quero uma casa! Aí, eu quero mudar os móveis, quero casar, eu quero ter um filho, quero ter dois, quero mudar de cidade, quero entrar na faculdade, quero sair, quero reformar a casa, quero adotar, quero separar, quero emagrecer, quero encontrar o par perfeito, quero trocar de carro. De novo.
Dando voltas e realizando. Gozo. Prazer.
Um desejo pode se realizar, nunca se satisfazer.
E que tudo se realize no ano que vai nascer.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
2010
Ano agitado.
No Brasil, uma mulher na Presidência, o fim e o começo de um novo/velho mandato.
De palhaço candidato à candidata que num lapso fabuloso disse que queria defender toda aquela corrupção. Vote em Tiririca, pior que tá, não fica. Talvez ele tenha razão.
Goleiro acusado de matar a namorada / mãe do filho / amante / atriz pornô, ou sei lá o que.
Milagre no Chile. Mineiros são resgatados depois de dois meses soterrados. Viva o imaginário que fez o resgate antes.
Guerra urbana no Rio. Com vitória da polícia. Quem diria? Diria eu, graças a Deus.
Esperança. A integridade nunca vai sair de moda. Honestidade também.
Pense na sua empresa. Você quer alguém que trabalhe roubando? E na sua casa? Alguém que mexa nas suas coisas?
Não. Nem nas amizades, nem nas relações profissionais, nem nas pessoais.
Respeito, honestidade, honra. Pode-se até divulgar que são coisas fora de moda, e a gente até se acostumar com a corrupção, mas princípios são bases que se constroem em casa, com exemplo e consistência.
Base. Não é a toa que a história do Brasil de corrupção e mais corrupção seja tão... acostumada. Como colônia de exploração, cada um foi acostumado a “tirar o seu”, e o resto é que se exploda.
O importante é explorar. Brigar por gabinetes mais luxuosos, mesas feitas com madeira de lei e cadeiras de couro. E as crianças nas filas dos hospitais, esperando atendimento...
No Brasil, se a mulher for estuprada e estiver usando saia no momento do crime, pode ser ela, considerada culpada.
Diferente da Suécia, que transar sem camisinha, pode ser considerado crime.
De um extremo ao outro. Um extremo ao outro.
Não pode, pode... Não, não pode, nenhuma vez.
De novo, a integridade não sai de moda. Do dicionário, um ser humano íntegro não se vende por situações momentâneas, infringindo as normas e leis, prejudicando alguém por um motivo fútil e incoerente. A moral de uma pessoa não tem preço e é indiscutível.
2010, ano intenso. Vitória de “ao menos um”. E se em 2011 houver alguém pra erguer esta bandeira. Vai virar notícia.
Faço votos.
No Brasil, uma mulher na Presidência, o fim e o começo de um novo/velho mandato.
De palhaço candidato à candidata que num lapso fabuloso disse que queria defender toda aquela corrupção. Vote em Tiririca, pior que tá, não fica. Talvez ele tenha razão.
Goleiro acusado de matar a namorada / mãe do filho / amante / atriz pornô, ou sei lá o que.
Milagre no Chile. Mineiros são resgatados depois de dois meses soterrados. Viva o imaginário que fez o resgate antes.
Guerra urbana no Rio. Com vitória da polícia. Quem diria? Diria eu, graças a Deus.
Esperança. A integridade nunca vai sair de moda. Honestidade também.
Pense na sua empresa. Você quer alguém que trabalhe roubando? E na sua casa? Alguém que mexa nas suas coisas?
Não. Nem nas amizades, nem nas relações profissionais, nem nas pessoais.
Respeito, honestidade, honra. Pode-se até divulgar que são coisas fora de moda, e a gente até se acostumar com a corrupção, mas princípios são bases que se constroem em casa, com exemplo e consistência.
Base. Não é a toa que a história do Brasil de corrupção e mais corrupção seja tão... acostumada. Como colônia de exploração, cada um foi acostumado a “tirar o seu”, e o resto é que se exploda.
O importante é explorar. Brigar por gabinetes mais luxuosos, mesas feitas com madeira de lei e cadeiras de couro. E as crianças nas filas dos hospitais, esperando atendimento...
No Brasil, se a mulher for estuprada e estiver usando saia no momento do crime, pode ser ela, considerada culpada.
Diferente da Suécia, que transar sem camisinha, pode ser considerado crime.
De um extremo ao outro. Um extremo ao outro.
Não pode, pode... Não, não pode, nenhuma vez.
De novo, a integridade não sai de moda. Do dicionário, um ser humano íntegro não se vende por situações momentâneas, infringindo as normas e leis, prejudicando alguém por um motivo fútil e incoerente. A moral de uma pessoa não tem preço e é indiscutível.
2010, ano intenso. Vitória de “ao menos um”. E se em 2011 houver alguém pra erguer esta bandeira. Vai virar notícia.
Faço votos.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
A CIDADE DO CRISTO
Sobrancelhas levantadas, olhos arregalados, cabeça projetada para frente. Ouvidos mais atentos, arrepio, atenção exagerada, o coração bate forte, como se pudesse ser escutado; a boca seca, há tremor. Adrenalina a mil.
Medo. Palavra conhecida de quem tem vivido e observado o estado de tensão da cidade maravilhosa. Mas quem durante a história sentiu medo, estava do lado errado; éramos nós.
O pai perdeu a sua função. Cristo está de braços abertos, calado.
Com o crescimento da violência, gera-se mais violência. Não é à toa a máxima: agressividade gera agressividade.
O Estado perdeu seu poder. Não há um Outro que intervenha; que barre. Aliás, o sujeito não é barrado. Pode-se tudo, a prisão é uma “continuidade sem lei” de onde se pode dar ordens, basta ter um celular, e para conseguí-lo, vale enfiá-lo em certos orifícios. E a palavra é dada. Palavra; de merda.
Foi-se acostumando que todos têm um preço. Mas o preço... é branco.
Aonde está o Coronel Nascimento? Alguém que diga: “auto, lá!”?. Que não seja corruptível, que não tenha preço. Que não venda ideais, ou melhor, que pague o preço por eles.
Com a ação do BOPE, parece que alguém tinha que se curvar. E foram os bandidos. Numa sociedade em que não há mais nome-do-pai, nem lei, nem errado, ou melhor, um certo em que se goza por passar por cima; a era do “é ilegal, e daí?”; alguém que desse a cara, olhando pra câmera e dizendo: “nós vamos caçá-los onde estiverem”, vem como uma castração radical; sem manha, sem “se’s”. Que apaziguador, apesar da guerra.
Esses dias escutei sobre esta intervenção, e alguém disse: “as próximas gerações virão, e o tráfico continuará”. Sim, as próximas gerações virão e eu torço pra que nelas existam muitos Coronéis Nascimento ao invés de muitos Mister’s M. M daquela palavra feia, e M de mágica também, que parece fazer o coelhinho branco sumir, de dentro da cartola. Afinal, se a gente apostar que o tráfico não tem fim, estaremos admitindo nossa fraqueza de Gabriela e só nos falta sair cantando: “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...”. Pode até ser que ele não tenha fim, mas se conformar com isso e fazer nada a respeito é nomear algo que não pode ser nomeado, é rotular, é engessar. E nada estaria mais engessado do que o Cristo, de braços abertos, mas boca calada.
Bater continência, se curvar diante da autoridade, prestar conta, amarrar os pontos, pontuar. Reverência, silêncio. Silêncio pra se escutar uma voz, que agora, fala.
Medo. Palavra conhecida de quem tem vivido e observado o estado de tensão da cidade maravilhosa. Mas quem durante a história sentiu medo, estava do lado errado; éramos nós.
O pai perdeu a sua função. Cristo está de braços abertos, calado.
Com o crescimento da violência, gera-se mais violência. Não é à toa a máxima: agressividade gera agressividade.
O Estado perdeu seu poder. Não há um Outro que intervenha; que barre. Aliás, o sujeito não é barrado. Pode-se tudo, a prisão é uma “continuidade sem lei” de onde se pode dar ordens, basta ter um celular, e para conseguí-lo, vale enfiá-lo em certos orifícios. E a palavra é dada. Palavra; de merda.
Foi-se acostumando que todos têm um preço. Mas o preço... é branco.
Aonde está o Coronel Nascimento? Alguém que diga: “auto, lá!”?. Que não seja corruptível, que não tenha preço. Que não venda ideais, ou melhor, que pague o preço por eles.
Com a ação do BOPE, parece que alguém tinha que se curvar. E foram os bandidos. Numa sociedade em que não há mais nome-do-pai, nem lei, nem errado, ou melhor, um certo em que se goza por passar por cima; a era do “é ilegal, e daí?”; alguém que desse a cara, olhando pra câmera e dizendo: “nós vamos caçá-los onde estiverem”, vem como uma castração radical; sem manha, sem “se’s”. Que apaziguador, apesar da guerra.
Esses dias escutei sobre esta intervenção, e alguém disse: “as próximas gerações virão, e o tráfico continuará”. Sim, as próximas gerações virão e eu torço pra que nelas existam muitos Coronéis Nascimento ao invés de muitos Mister’s M. M daquela palavra feia, e M de mágica também, que parece fazer o coelhinho branco sumir, de dentro da cartola. Afinal, se a gente apostar que o tráfico não tem fim, estaremos admitindo nossa fraqueza de Gabriela e só nos falta sair cantando: “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...”. Pode até ser que ele não tenha fim, mas se conformar com isso e fazer nada a respeito é nomear algo que não pode ser nomeado, é rotular, é engessar. E nada estaria mais engessado do que o Cristo, de braços abertos, mas boca calada.
Bater continência, se curvar diante da autoridade, prestar conta, amarrar os pontos, pontuar. Reverência, silêncio. Silêncio pra se escutar uma voz, que agora, fala.
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