Ganhei uma priminha. É engraçado como aquele bebezinho que dá pra pegar no colo agora, saiu de dentro da barriga!
Nascimento, coisa impressionante. De duas células, faz-se uma que vai se modificiando, crescendo e vira uma vida. Nove meses de espera, e nasce então um indivíduo. Bravo, bravíssimo. A natureza cumpre com perfeição aquilo que prometeu. E agora? O que fazer com esse serzinho que está pra fora da barriga, mas dentro do mundo? Como agir, como educar, como repreender, como amar? Vamos partir do pressuposto que o amor deve estar ali, mas como amar? De que forma amar? Amar pra que não sufoque, amar pra que não seja demais, amar de forma que se possa permitir o outro, amar pra que se possa proibir. Sim, é preciso amar, pra que se possa sustentar a proibição, dizer "não" vinte vezes, sabendo que aquilo, é o melhor. De fato, chego à conclusão de que o mais fácil dessa história toda é carregar o bebê na barriga, porque depois que ele sai, é que as coisas podem ficar muito sérias.
O lugar que um bebê ocupa, depende de muitas coisas, mesmo antes de ele nascer. Essa mãe brincou de boneca, sonhou em ter filhos, sonhou em ser mãe? É, antes de ser objeto de desejo, essa criança tem que ter sido objeto da fantasia. A fantasia de carregar um bebê no colo, de trocar a fralda, de dar de mamar, de ver o seu sorriso. PErcebe como o bebê existe antes de tudo, na imaginação? E se não for assim, sinto em lhe dizer, essa pessoa, que já foi um bebê, terá mais problemas do que se gostaria. Vi ainda hoje, fotos de um bebê que foi encontrado enterrado vivo, e que sobreviveu. Sorte a dele. Sorte de ter sido enterrado vivo e bebê, teve a chance de ser descoberto, pois se dependesse da mãe, talvez ela o enterrase sobretudo,m não apenas vivo, mas "em vida". Massacrando o filho, dando a ele o lugar que na verdade ela o tinha destinado: o lugar de não existir. Não existir em vida, é muito pior do que não existir em morte. Traz muito mais consequências, é muito mais tirano do que não existir na carne. E ele vai pagar com a vida o preço dessa existência. É claro que não existe uma fórmula mágica e secreta para a criação de filhos, (queixa de muitos pais), "filhos não vem com manual de instrução", é claro que não vem, e isso já é muita coisa. Se viesse com um manual, tudo ficaria muito técnicom muito certo, muito plástico; e isso é tudo que não devemos ser: um robô, sabe porquê? Porque o robô só faz tudo aquilo que o mandam fazer. E isso, é pouco demais. Pouco demais pra alguém que é sujeito, e que pode por si só, assinar a própria carta e não só selar e colocar no correio pra alguém.
Tudo é uma questão de lugar. Não o lugar geográfico, aqui ou na África, na Europa ou nos Estados Unidos, mas de que lugar me foi dado, que lugar queriam que eu ocupasse, o que esperavam de mim? Nem que seja pra depois, a gente dar um ": tchauzinho" bem categórico a isso que esperavam, e superar não o que os outros desejam, mas aquilo que eu desejo de mim mesmo.
E que a gente possa falar assim pros nossos filhos: "você é a boneca dos meus sonhosm o meu brinquedo do jardim da infância"; "o que eu sonhei", e porque sonhei, agora é capaz de sonhar, construir, viver. "É o meu brinquedinhom, mas brinquedinho vivo, que criou asas, e voou".
segunda-feira, 1 de março de 2010
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
CARNA AVAL
Todo ano, é a mesma coisa. A famosa frase: “o ano só começa depois do carnaval”. O que será isso? Será que se o carnaval fosse em julho, só começaria então, depois disso?
Afinal de contas, o que é isso que tem todo ano e parece que exorcisa o que há dentro de nós, pra daí a gente começar a pegar no batente?
Interessante a origem da palavra carnaval, ela se refere a um “adeus à carne”, como se a gente pudesse no carnaval, abusar dos prazeres da carne, é o aval para a carne e depois desse abuso pra daí se despedir e poder usar mais a cabeça. Qualquer tentativa antes disso termina em: “ah! Deixa disso, afinal é carnaval!”.
Carne, corpo. Esse é o segredo do carnaval, e o que o faz dele muito mais popular do que qualquer retiro espiritual. Famoso no mundo todo, festejado, quase sinônimo de liberdade, de lançar fora o recalque. Ah, aí é que está a questão. O corpo é o reduto das pulsões, onde tudo acontece, onde o cérebro comanda, manda e desmanda, onde as sensações acontecem, onde a gente somatiza, onde a gente sente. É físico e ponto final.
Não é a toa que a paixão é sempre idealizada. O que ela traz? Frio na barriga, coração batendo forte, rubor, pernas bambas. E todo mundo corre atrás dela. No carnaval então, mais ainda. Corpos a mostra, academias em alta, não há período mais concorrido pra se fazer tatuagens. Corpo é corpo. E as sensações que a gente sente nele, são registradas e jamais esquecidas. Estudos são realizados em prol desse fenômeno, pesquisas ao redor do mundo, milhões de dólares investidos pra saber o que acontece com a gente.
O que dizer da pele? Maior órgão do corpo humano, cheio de neurônios sensitivos que fazem perceber a menor diferença se algo encosta, e estamos falando de algo como uma pluma.
Sim, o carnaval é esse tempo de deixar pra lá as preocupações, de se envolver consigo mesmo e com os amigos e de deixar o corpo falar mais alto. Nessa época, os julgamentos são menos acentuados, e é uma brechinha pra poder falar: “ah, xô recalque, é carnaval!”.
O corpo, antes de mais nada, vem da pura necessidade, do corpo biológico, de um corpo que precisa ser cuidado quando bebê, mas que se transforma em corpo erógeno, a partir do que vem além do cuidado, um corpo inserido na linguagem, na memória, na significação e na representação que ele adquire, se adquire.
Buscamos loucamente o prazer. Estamos todo o tempo em busca de algo que nos traga mais do que o simples sobreviver, coisa que fazemos talvez durante todo o ano, mas que no carnaval, alguns de nós se permite ir um pouco além, e deixar uma marquinha que possa ser lembrada através do tempo e que possa fazer a diferença. O fato é, por que precisamos do aval de alguém para nos permitir extrapolar?
Pura neurose, regida pelo princípio do Superego. Estância que dá o aval ou não pra que a gente possa extravasar e jogar tudo pro ar, parafraseando a carnavalesca Cláudia Leite. Sentir com tudo o que o corpo possa permitir, sentir o prazer, ir além, chegar ao limite.
Puro sonho de carnaval.
Afinal de contas, o que é isso que tem todo ano e parece que exorcisa o que há dentro de nós, pra daí a gente começar a pegar no batente?
Interessante a origem da palavra carnaval, ela se refere a um “adeus à carne”, como se a gente pudesse no carnaval, abusar dos prazeres da carne, é o aval para a carne e depois desse abuso pra daí se despedir e poder usar mais a cabeça. Qualquer tentativa antes disso termina em: “ah! Deixa disso, afinal é carnaval!”.
Carne, corpo. Esse é o segredo do carnaval, e o que o faz dele muito mais popular do que qualquer retiro espiritual. Famoso no mundo todo, festejado, quase sinônimo de liberdade, de lançar fora o recalque. Ah, aí é que está a questão. O corpo é o reduto das pulsões, onde tudo acontece, onde o cérebro comanda, manda e desmanda, onde as sensações acontecem, onde a gente somatiza, onde a gente sente. É físico e ponto final.
Não é a toa que a paixão é sempre idealizada. O que ela traz? Frio na barriga, coração batendo forte, rubor, pernas bambas. E todo mundo corre atrás dela. No carnaval então, mais ainda. Corpos a mostra, academias em alta, não há período mais concorrido pra se fazer tatuagens. Corpo é corpo. E as sensações que a gente sente nele, são registradas e jamais esquecidas. Estudos são realizados em prol desse fenômeno, pesquisas ao redor do mundo, milhões de dólares investidos pra saber o que acontece com a gente.
O que dizer da pele? Maior órgão do corpo humano, cheio de neurônios sensitivos que fazem perceber a menor diferença se algo encosta, e estamos falando de algo como uma pluma.
Sim, o carnaval é esse tempo de deixar pra lá as preocupações, de se envolver consigo mesmo e com os amigos e de deixar o corpo falar mais alto. Nessa época, os julgamentos são menos acentuados, e é uma brechinha pra poder falar: “ah, xô recalque, é carnaval!”.
O corpo, antes de mais nada, vem da pura necessidade, do corpo biológico, de um corpo que precisa ser cuidado quando bebê, mas que se transforma em corpo erógeno, a partir do que vem além do cuidado, um corpo inserido na linguagem, na memória, na significação e na representação que ele adquire, se adquire.
Buscamos loucamente o prazer. Estamos todo o tempo em busca de algo que nos traga mais do que o simples sobreviver, coisa que fazemos talvez durante todo o ano, mas que no carnaval, alguns de nós se permite ir um pouco além, e deixar uma marquinha que possa ser lembrada através do tempo e que possa fazer a diferença. O fato é, por que precisamos do aval de alguém para nos permitir extrapolar?
Pura neurose, regida pelo princípio do Superego. Estância que dá o aval ou não pra que a gente possa extravasar e jogar tudo pro ar, parafraseando a carnavalesca Cláudia Leite. Sentir com tudo o que o corpo possa permitir, sentir o prazer, ir além, chegar ao limite.
Puro sonho de carnaval.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
SOLIDÃO
Quem tem medo da solidão, solidão, solidão?
Quem tem medo da solidão? Lá lá lá lá lá lá.
Uma vez li que a solidão é perigosa, mas que não é contagiosa.
Antes fosse.
Uma vez que há contágio, quer dizer que é preciso contato, logo, não se está sozinho.
E quem tem medo dela? Será que alguém tem?
Todos temos medo da solidão. Todos. Uns mais, outros menos; mas todos nós, em algum grau, sofremos deste mal.
Uns, preferem se submeter a um relacionamento desgastado pra não se sentirem sozinhos... outros, combatem a solidão com uma porção de “amigos”, amigos que muitas vezes só servem pra sugar o que a gente tem, mas que com eles, tem barulho e acabo me convencendo de que não estou só...
Tem gente que tenta combater a solidão com a TV, e muitas reflito sobre esse papel que a TV tem de nos tirar um pouquinho daquela realidade que muitas vezes está tão sofrida e solitária. Aliás, já parou pra pensar que na prisão, quando querem castigar mais severamente algum preso eles o mandam para a “solitária”? Estar sem ninguém, não poder ser ouvido nem ouvir. Que castigo cruel. Pré-requisito pra loucura.
E que solidão é essa que se sente mesmo com a casa cheia? Que solidão é essa que dói no peito com o quarto fechado? É o silêncio que dói?
Outra vez, escutei uma música: “desilusão, desilusão... danço eu, dança você, na dança da solidão”....
Será que é a desilusão que traz a solidão? Quando me desiludo com alguém, aí a companhia perde a graça, e então, fico sozinho? Então quem sabe, a solidão seja uma escolha. Não existe um amigo que seja perfeito, mas só porque ele tem um defeitinho, ou defeitão, às vezes escolho perder o contato. E será que eu não posso me relacionar com ele apesar dos defeitos? Afinal, eu também os tenho.
Freud falou, há algum tempo sobre a dor do desamparo. Primeiro, somos jogados no mundo sem pedir para estar aqui, estamos submissos à vontade do Outro. Estar à mercê, estar sozinho nessa enxurrada de sentimentos, de fato, é muita falta de amparo pra humanos tão humanos, meros mortais como nós. Des – amparo, sentido na carne.
Já dizia Clarice Linspector:
“Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo”.
É verdade, a gente não sabe mesmo lidar com a solidão. E a gente implora, como implorou Clarice, pra que mesmo a solidão, nos faça companhia.
De fato, a solidão não é contagiosa, antes fosse.
Quem tem medo da solidão? Lá lá lá lá lá lá.
Uma vez li que a solidão é perigosa, mas que não é contagiosa.
Antes fosse.
Uma vez que há contágio, quer dizer que é preciso contato, logo, não se está sozinho.
E quem tem medo dela? Será que alguém tem?
Todos temos medo da solidão. Todos. Uns mais, outros menos; mas todos nós, em algum grau, sofremos deste mal.
Uns, preferem se submeter a um relacionamento desgastado pra não se sentirem sozinhos... outros, combatem a solidão com uma porção de “amigos”, amigos que muitas vezes só servem pra sugar o que a gente tem, mas que com eles, tem barulho e acabo me convencendo de que não estou só...
Tem gente que tenta combater a solidão com a TV, e muitas reflito sobre esse papel que a TV tem de nos tirar um pouquinho daquela realidade que muitas vezes está tão sofrida e solitária. Aliás, já parou pra pensar que na prisão, quando querem castigar mais severamente algum preso eles o mandam para a “solitária”? Estar sem ninguém, não poder ser ouvido nem ouvir. Que castigo cruel. Pré-requisito pra loucura.
E que solidão é essa que se sente mesmo com a casa cheia? Que solidão é essa que dói no peito com o quarto fechado? É o silêncio que dói?
Outra vez, escutei uma música: “desilusão, desilusão... danço eu, dança você, na dança da solidão”....
Será que é a desilusão que traz a solidão? Quando me desiludo com alguém, aí a companhia perde a graça, e então, fico sozinho? Então quem sabe, a solidão seja uma escolha. Não existe um amigo que seja perfeito, mas só porque ele tem um defeitinho, ou defeitão, às vezes escolho perder o contato. E será que eu não posso me relacionar com ele apesar dos defeitos? Afinal, eu também os tenho.
Freud falou, há algum tempo sobre a dor do desamparo. Primeiro, somos jogados no mundo sem pedir para estar aqui, estamos submissos à vontade do Outro. Estar à mercê, estar sozinho nessa enxurrada de sentimentos, de fato, é muita falta de amparo pra humanos tão humanos, meros mortais como nós. Des – amparo, sentido na carne.
Já dizia Clarice Linspector:
“Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo”.
É verdade, a gente não sabe mesmo lidar com a solidão. E a gente implora, como implorou Clarice, pra que mesmo a solidão, nos faça companhia.
De fato, a solidão não é contagiosa, antes fosse.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
VOCÊ TEM FOME DE QUE? A FOME DA FALTA
A falta deu o que faltar... quer dizer, o que falar.
Na última coluna, ao abordar a "insaciável insaciabilidade do ser", comentários não faltaram pra falar da falta.
O que falta? Por que falta? Falta do que? Falta ter ou falta não ter?
Pois então, frente a todas estas perguntas, a devolvo: "o que é essa falta que não cessa frente ao objeto que eu escolhi para tamponar o que falta em mim?".
Os bebês de colo se pudessem falar horas depois que nascem, contariam histórias enlouquecedoras, tenho certeza. Primeiro, o bebê nasce. Logo que conhece as luzes do mundo externo, lhe é dado o seio; a mãe lhe ordena: "-mame!". Imperativo, ordem de um outro grandão. Enquanto ele ainda não sabe o que é boca, nem seio, numa tentativa meio cega e inteiramente tumultuada, descobre que é a boca que deve envolver o seio. Ok! Muito bem! Mamãe, esse outro grandão sorri pra mim e sinto que ela fica feliz.
- "Cumpri minha missão". pensa o bebê. Porém, assim que pego o jeito da mamada, sou arrancado do peito e começam a me socar as costas, o que é isso? Sei lá, um mal-estar, uma pressão, algo estranho, esquisito (bom, até agora, nada tem sido menos do que esquisito), até que um arzinho sai da minha boca. Opa! Mamãe, o mesmo ser que me coloca o peito na boca e me soca nas costas deu um sorriso. Acho que ela está feliz de novo! Não bastasse todo esse ritual, agora ela quer que eu durma, que eu acorde que eu dê um sorrisinho, que eu faça xixi, que eu não chore, que eu durma de novo, que eu acorde, que eu mame no peito, que eu me entretenha com o bichinho, que eu durma no bercinho que eu tome o suquinho, que eu engatinhem que eu dê os primeiros passos, que do bê-a-bá eu passe para as palavras, que eu me forme, que eu tenha sucesso, seja rico, trabalhador, não respondão, cativante, estudioso, responsável, educado, grato e feliz! Só isso.
Com tanta demanda, só enlouquecendo, ou se estruturando de uma vez.
É todo esse desejo da mãe, que no momento em que é preenchido, ela muda de idéia, e fala: "agora não é mais isso", que do dormir passa para o acordar, que do comer passa para o brincar, que do engatinhar passa para o andar, é toda essa falta NA MÃE; falta, porque ela demanda o tempo todo que seja preenchida e que o bebê tenta preencher, que dá a estruturação necessária pra que ele possa sim, mamar, dormir, acordar, brincar, não chorar (e chorar de vez em quando também), engatinhar, andar, falar, estudar, se formar, trabalhar, e tentar... ser feliz.
É o desejo desse Outro Grandão que me estrutura e que me constitui. E é sempre esse "tem algo faltando", o responsável por permitir que eu tente preencher e que não preencha de verdade, porque se for completo e pleno demais, não sobra espaço pra faltar de novo e fazer tudo circular.
A vida deve ser um mau encontro.
Aquele que sempre deixa a gente com sensação de quero mais, o que a gente acaba por perceber que de mau, não tem nada. É o mau / bom
encontro.
Porque se for demais, vira overdose, e tudo que é over, é dose!
Na última coluna, ao abordar a "insaciável insaciabilidade do ser", comentários não faltaram pra falar da falta.
O que falta? Por que falta? Falta do que? Falta ter ou falta não ter?
Pois então, frente a todas estas perguntas, a devolvo: "o que é essa falta que não cessa frente ao objeto que eu escolhi para tamponar o que falta em mim?".
Os bebês de colo se pudessem falar horas depois que nascem, contariam histórias enlouquecedoras, tenho certeza. Primeiro, o bebê nasce. Logo que conhece as luzes do mundo externo, lhe é dado o seio; a mãe lhe ordena: "-mame!". Imperativo, ordem de um outro grandão. Enquanto ele ainda não sabe o que é boca, nem seio, numa tentativa meio cega e inteiramente tumultuada, descobre que é a boca que deve envolver o seio. Ok! Muito bem! Mamãe, esse outro grandão sorri pra mim e sinto que ela fica feliz.
- "Cumpri minha missão". pensa o bebê. Porém, assim que pego o jeito da mamada, sou arrancado do peito e começam a me socar as costas, o que é isso? Sei lá, um mal-estar, uma pressão, algo estranho, esquisito (bom, até agora, nada tem sido menos do que esquisito), até que um arzinho sai da minha boca. Opa! Mamãe, o mesmo ser que me coloca o peito na boca e me soca nas costas deu um sorriso. Acho que ela está feliz de novo! Não bastasse todo esse ritual, agora ela quer que eu durma, que eu acorde que eu dê um sorrisinho, que eu faça xixi, que eu não chore, que eu durma de novo, que eu acorde, que eu mame no peito, que eu me entretenha com o bichinho, que eu durma no bercinho que eu tome o suquinho, que eu engatinhem que eu dê os primeiros passos, que do bê-a-bá eu passe para as palavras, que eu me forme, que eu tenha sucesso, seja rico, trabalhador, não respondão, cativante, estudioso, responsável, educado, grato e feliz! Só isso.
Com tanta demanda, só enlouquecendo, ou se estruturando de uma vez.
É todo esse desejo da mãe, que no momento em que é preenchido, ela muda de idéia, e fala: "agora não é mais isso", que do dormir passa para o acordar, que do comer passa para o brincar, que do engatinhar passa para o andar, é toda essa falta NA MÃE; falta, porque ela demanda o tempo todo que seja preenchida e que o bebê tenta preencher, que dá a estruturação necessária pra que ele possa sim, mamar, dormir, acordar, brincar, não chorar (e chorar de vez em quando também), engatinhar, andar, falar, estudar, se formar, trabalhar, e tentar... ser feliz.
É o desejo desse Outro Grandão que me estrutura e que me constitui. E é sempre esse "tem algo faltando", o responsável por permitir que eu tente preencher e que não preencha de verdade, porque se for completo e pleno demais, não sobra espaço pra faltar de novo e fazer tudo circular.
A vida deve ser um mau encontro.
Aquele que sempre deixa a gente com sensação de quero mais, o que a gente acaba por perceber que de mau, não tem nada. É o mau / bom
encontro.
Porque se for demais, vira overdose, e tudo que é over, é dose!
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
VOCÊ TEM FOME DE QUE?
Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...
Se tudo o que é comestível, é comida...
Por que que eu tenho vontade de comer certas coisas e outras não?
Se bebida, é tudo que é líquido, por que eu tenho vontade de alguns, e de outros não?
Como diz a música dos Titãs... a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, a gente não quer só... a gente não quer só... a gente não quer só...
A gente quer isso, e mais um monte de coisa.
Quando tiver tal coisa, aí sim, tudo será perfeito... quando comprar, quando tiver, quando alcançar... mas a gente compra e quer mais... a gente tem, e quer mais... a gente alcança e quer mais...
A gente não quer só, a gente quer mais.
Essa insaciável insaciabilidade do ser... essa insaciável vontade de ter, e depois que agente temm, percebe que não é tudo.
O que move e o que eu tenho ou o que me falta? E que falta é essa que jamais cessa?
O que é isso que faz laço em alguns objetos, contorna, envolve e depois deixa cair?
Uma vez escutei uma pessoa respondendo à pergunta de um vendedor de loteria: Ele diz:
- Quer comprar, moça? , e ela então responde,
- Não, moço... muito obrigada! Já pensou se eu ganho?, e dava risada.
Ora, se o medo é de ganhar, então o que se teme não é a pobreza, mas a fortuna. É o cheio, não o vazio; a commpletude, não a falta.
A gente não quer só diznheiro, a gente quer dinheiro e felicidade...
"A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade"... será mesmo? será mesmo qu ea gente quer o inteiro? Será que a vida toda a gente não sai buscando metades pra preencher? Pra com...pletar?
E quando a gente completa?
Aí a gente quer mais metade, pra se deixar fazer inteiro novamente.
Não vou atrás do que já tenho, vou atrás do que não tenho, porque aí as coisas fazem sentido.
A gente tem sede da falta, e não do completo. Se nada me falta, fico pleno, e é isso que eu temo, porque nada é mais pleno do que a morte.
Você tem fome de que?
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...
Se tudo o que é comestível, é comida...
Por que que eu tenho vontade de comer certas coisas e outras não?
Se bebida, é tudo que é líquido, por que eu tenho vontade de alguns, e de outros não?
Como diz a música dos Titãs... a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, a gente não quer só... a gente não quer só... a gente não quer só...
A gente quer isso, e mais um monte de coisa.
Quando tiver tal coisa, aí sim, tudo será perfeito... quando comprar, quando tiver, quando alcançar... mas a gente compra e quer mais... a gente tem, e quer mais... a gente alcança e quer mais...
A gente não quer só, a gente quer mais.
Essa insaciável insaciabilidade do ser... essa insaciável vontade de ter, e depois que agente temm, percebe que não é tudo.
O que move e o que eu tenho ou o que me falta? E que falta é essa que jamais cessa?
O que é isso que faz laço em alguns objetos, contorna, envolve e depois deixa cair?
Uma vez escutei uma pessoa respondendo à pergunta de um vendedor de loteria: Ele diz:
- Quer comprar, moça? , e ela então responde,
- Não, moço... muito obrigada! Já pensou se eu ganho?, e dava risada.
Ora, se o medo é de ganhar, então o que se teme não é a pobreza, mas a fortuna. É o cheio, não o vazio; a commpletude, não a falta.
A gente não quer só diznheiro, a gente quer dinheiro e felicidade...
"A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade"... será mesmo? será mesmo qu ea gente quer o inteiro? Será que a vida toda a gente não sai buscando metades pra preencher? Pra com...pletar?
E quando a gente completa?
Aí a gente quer mais metade, pra se deixar fazer inteiro novamente.
Não vou atrás do que já tenho, vou atrás do que não tenho, porque aí as coisas fazem sentido.
A gente tem sede da falta, e não do completo. Se nada me falta, fico pleno, e é isso que eu temo, porque nada é mais pleno do que a morte.
Você tem fome de que?
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
ANO NOVO, DESEJO NOVO
Adeus ano velho, feliz ano novo... que tudo se realize, no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender!
É, não é a toa que essa musiquinha insiste em comparecer todo ano às vésperas de um novo ano. Então, será que ela é só desejo? Porque se eu quero que tudo se realize, mas no ano seguinte continuo cantando, quer dizer que não realizei, certo? Ou será que ela é um simples dito pra que a gente não perca as esperanças? Por que será que nunca estou completamente satisfeito com o que me ocorre?
Se comprei um carro bom este ano, no ano que vem quero outro, quero dois, quero mais. Se conquistei a casa dos meus sonhos, ano que vem quero reformá-la, colocar novas cortinas, novos móveis, cara nova. Perpétua e insaciável insatisfação. O desejo pode aparecer inalcançável num primeiro momento; aí eu luto, luto, luto e o consigo. E quando consigo, digo: “puxa, não era bem isso”. Mau encontro, sempre.
Que bom que é assim. Já imaginou se a gente se aquietasse com um brinquedinho novo? Ou se, por curtir o filho pequeno, desejasse que ele jamais crescesse? Ou, por saber que a gente vai ter trabalho limpando a cozinha, não chamasse os amigos pra fazer a festa? Bendito laço esse que permite que pelo menos por alguns instantes, eu acredite que aquele encontro vai me fazer bem, vai me deixar melhor, vai contribuir, vai saciar. Pior seria se a gente falasse: “bom, já que não é isso que vai resolver, então, não vou nem investir, vou ficar na minha, vou tocar o barco, não vou depositar esperanças já que elas são vãs”. Que dificuldade de encarar o vão, o simples, o sem objetivo imediato. Parece que durante tanto tempo vivemos em busca de algo como trabalhar para ganhar dinheiro, conversar para conseguir alguma conclusão, dirigir para chegar; que esquecemos que vivemos... para morrer.
Ano velho, quase começo do novo, hora de fazer uma retrospectiva, e não aquela que já vem pronta na televisão. Hora de pensar no que não gostei do ano velho e do que não quero repetir no ano novo. Objetivo de novo? Sim, mas vamos combinar que este talvez seja mais proveitoso. E que talvez esse sim, tenha um propósito menos proposital. O propósito de me deixar aproveitar mais a jornada, porque o destino... bom, dele falamos, algumas linhas antes. Sabemos aonde acaba o destino da vida. E o que é o propósito dela, se não o de deixar o desejo aflorar e permitir novos enlaces, novos maus encontros, novos êxtases, nem que sejam por um momentinho só?
Que a gente conquiste não o que quer, mas o que deseja. E com isso, termino este ano, com o mesmo tema em que inaugurei esta coluna. A diferença entre o querer e o desejar. Que o que aconteça no ano novo, seja da ordem do desejo, aquilo que eu não controlo, aquilo que simplesmente aparece porque é verdadeiro.
Afinal, querer não é poder, mas desejar é.
É, não é a toa que essa musiquinha insiste em comparecer todo ano às vésperas de um novo ano. Então, será que ela é só desejo? Porque se eu quero que tudo se realize, mas no ano seguinte continuo cantando, quer dizer que não realizei, certo? Ou será que ela é um simples dito pra que a gente não perca as esperanças? Por que será que nunca estou completamente satisfeito com o que me ocorre?
Se comprei um carro bom este ano, no ano que vem quero outro, quero dois, quero mais. Se conquistei a casa dos meus sonhos, ano que vem quero reformá-la, colocar novas cortinas, novos móveis, cara nova. Perpétua e insaciável insatisfação. O desejo pode aparecer inalcançável num primeiro momento; aí eu luto, luto, luto e o consigo. E quando consigo, digo: “puxa, não era bem isso”. Mau encontro, sempre.
Que bom que é assim. Já imaginou se a gente se aquietasse com um brinquedinho novo? Ou se, por curtir o filho pequeno, desejasse que ele jamais crescesse? Ou, por saber que a gente vai ter trabalho limpando a cozinha, não chamasse os amigos pra fazer a festa? Bendito laço esse que permite que pelo menos por alguns instantes, eu acredite que aquele encontro vai me fazer bem, vai me deixar melhor, vai contribuir, vai saciar. Pior seria se a gente falasse: “bom, já que não é isso que vai resolver, então, não vou nem investir, vou ficar na minha, vou tocar o barco, não vou depositar esperanças já que elas são vãs”. Que dificuldade de encarar o vão, o simples, o sem objetivo imediato. Parece que durante tanto tempo vivemos em busca de algo como trabalhar para ganhar dinheiro, conversar para conseguir alguma conclusão, dirigir para chegar; que esquecemos que vivemos... para morrer.
Ano velho, quase começo do novo, hora de fazer uma retrospectiva, e não aquela que já vem pronta na televisão. Hora de pensar no que não gostei do ano velho e do que não quero repetir no ano novo. Objetivo de novo? Sim, mas vamos combinar que este talvez seja mais proveitoso. E que talvez esse sim, tenha um propósito menos proposital. O propósito de me deixar aproveitar mais a jornada, porque o destino... bom, dele falamos, algumas linhas antes. Sabemos aonde acaba o destino da vida. E o que é o propósito dela, se não o de deixar o desejo aflorar e permitir novos enlaces, novos maus encontros, novos êxtases, nem que sejam por um momentinho só?
Que a gente conquiste não o que quer, mas o que deseja. E com isso, termino este ano, com o mesmo tema em que inaugurei esta coluna. A diferença entre o querer e o desejar. Que o que aconteça no ano novo, seja da ordem do desejo, aquilo que eu não controlo, aquilo que simplesmente aparece porque é verdadeiro.
Afinal, querer não é poder, mas desejar é.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
FELIZ LOUCURATAL
O tempo é de festa. A época mais esperada do ano. É natal!
Tempo de descanso, reflexão e nostalgia. Tempo de pensar no que passou, no que se fez, no que virá. Tempo de festejar com a família, de aproveitar os momentos juntos, tempo de pensar em quem fez ou não diferença. Religioso ou não, natal é natal, e o que a gente aprende é que é tempo de valorizar as pessoas.
Estranho? Fora da realidade? Utopia?
Enquanto escrevo essas linhas, penso no quanto isso está distante da nossa realidade. Semana passada, fui ao shopping. Além de enfrentar um trânsito infernal, parado no calor de pleno dezembro; filas e mais filas, lugares excassos para estacionar, empurrões, correria, obrigações. Em nada isso parecia com a descrição do natal das primeiras linhas; ao invés de um feliz natal, parecia mais uma loucuratal.
Quando pequena, não vou negar, esperava ansiosa o natal chegar, adorava os presentes! Mas tudo isso era feito em família; o jantar, a arrumação, e é claro que as crianças estavam preocupadas absolutamente com a chegada do bom velhinho, e ele sempre chegava! Às vezes era um amigo de família, às vezes algum tio, às vezes o vovô, mas ele sempre vinha; o bom velhinho não falhava jamais! É natural que as crianças pensem no papai-noel às vésperas das festas e tudo o mais. É alegre, é contagiante, é bom. Mas é um presságio. Já que na infância, a gente aprende tudo através mundo concreto, aquele que se pode pegar, que seja assim; através de presentes, pra que a gente se dê conta depois do verdadeiro significado, que exige mesmo, certa abstração.
O fato é que os adultos parecem também estar embarcando nessa. O importante é ter. Quanto mais se compra menos a gente pensa, então; compremos. O vazio é ruim demais de suportar, então a gente enche os dias de afazeres, mesmo que eles já tenham terminado.
O comércio é imperativo: compre, compre, compre. Gaste, gaste, gaste. Quanto mais você gastar, mais pontos vai acumular pra ganhar um “não-sei-o-que”. Compre, compre, compre. Parcele, parcele, parcele; não esqueça, não esqueça, não esqueça. Com o ano todo, aprendemos a ser objetivos, a mostrar resultados, a não perder tempo. E quando chega o natal, estamos tão loucos com a famosa correria de dezembro que quando as coisas acabam, encontramos ainda mais motivos para não parar. Como robozinhos, seguimos na sedução das propagandas e nos hipnotizamos com a promessa de que quanto mais temos, menos vazio sentimos.
Fico me perguntando, se no meio disso tudo, a gente sabe mesmo o que fazer com uma tarde vã. Aquela, em que o trabalho acabou, quando sobra algum tempo pra gente parar um pouco... parar e curtir o entardecer, abraçar sem que seja em troca de um presente, abraçar por abraçar, conversar por conversar, rir por rir. Esses momentos em que a gente fica curtindo, um bate-papo, um carinho, um olhar.
Que o natal seja mais natal e menos louco. Que a gente possa aproveitar um pouquinho que seja aquelas coisas que não se podem comprar, nem com mastercard.
Tempo de descanso, reflexão e nostalgia. Tempo de pensar no que passou, no que se fez, no que virá. Tempo de festejar com a família, de aproveitar os momentos juntos, tempo de pensar em quem fez ou não diferença. Religioso ou não, natal é natal, e o que a gente aprende é que é tempo de valorizar as pessoas.
Estranho? Fora da realidade? Utopia?
Enquanto escrevo essas linhas, penso no quanto isso está distante da nossa realidade. Semana passada, fui ao shopping. Além de enfrentar um trânsito infernal, parado no calor de pleno dezembro; filas e mais filas, lugares excassos para estacionar, empurrões, correria, obrigações. Em nada isso parecia com a descrição do natal das primeiras linhas; ao invés de um feliz natal, parecia mais uma loucuratal.
Quando pequena, não vou negar, esperava ansiosa o natal chegar, adorava os presentes! Mas tudo isso era feito em família; o jantar, a arrumação, e é claro que as crianças estavam preocupadas absolutamente com a chegada do bom velhinho, e ele sempre chegava! Às vezes era um amigo de família, às vezes algum tio, às vezes o vovô, mas ele sempre vinha; o bom velhinho não falhava jamais! É natural que as crianças pensem no papai-noel às vésperas das festas e tudo o mais. É alegre, é contagiante, é bom. Mas é um presságio. Já que na infância, a gente aprende tudo através mundo concreto, aquele que se pode pegar, que seja assim; através de presentes, pra que a gente se dê conta depois do verdadeiro significado, que exige mesmo, certa abstração.
O fato é que os adultos parecem também estar embarcando nessa. O importante é ter. Quanto mais se compra menos a gente pensa, então; compremos. O vazio é ruim demais de suportar, então a gente enche os dias de afazeres, mesmo que eles já tenham terminado.
O comércio é imperativo: compre, compre, compre. Gaste, gaste, gaste. Quanto mais você gastar, mais pontos vai acumular pra ganhar um “não-sei-o-que”. Compre, compre, compre. Parcele, parcele, parcele; não esqueça, não esqueça, não esqueça. Com o ano todo, aprendemos a ser objetivos, a mostrar resultados, a não perder tempo. E quando chega o natal, estamos tão loucos com a famosa correria de dezembro que quando as coisas acabam, encontramos ainda mais motivos para não parar. Como robozinhos, seguimos na sedução das propagandas e nos hipnotizamos com a promessa de que quanto mais temos, menos vazio sentimos.
Fico me perguntando, se no meio disso tudo, a gente sabe mesmo o que fazer com uma tarde vã. Aquela, em que o trabalho acabou, quando sobra algum tempo pra gente parar um pouco... parar e curtir o entardecer, abraçar sem que seja em troca de um presente, abraçar por abraçar, conversar por conversar, rir por rir. Esses momentos em que a gente fica curtindo, um bate-papo, um carinho, um olhar.
Que o natal seja mais natal e menos louco. Que a gente possa aproveitar um pouquinho que seja aquelas coisas que não se podem comprar, nem com mastercard.
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