Poeta, que poeta... não fala de amor?
Transmissão da emoção
Transmissão? Tradução?
Não, sensação.
Pra poder traduzir é preciso sentir.
Sentir sem medo, sentir de alma, sentir de corpo.
Corpo pulsional, alma visceral...
Paixão, arrepio
Bem me quer, mal me quer
Bem me quer o céu
Mal me quer o inferno
De um pólo ao outro, em um segundo.
Ouço a voz
Estilhaço de objeto a que invade
Olhar, não o olho
Olhar que revela meu eu, no Outro
Espelho
Reconhecimento
Paixão
Um tanto quanto narcísica
Mas o que seria dela se não fosse o eu?
Vazio
Abismo
Passagem ao ato
Ato
Mato
Fato
Marca
Traço
O mesmo pelo qual me apaixono
O pontinho no nariz pelo qual desapaixono
Traço, laço
Unário, único
Desde aquele tempo em que éramos um só.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O RESGATE IMAGINÁRIO
Hoje, os mineiros estão sendo resgatados.
Depois de sessenta e nove dias de pesadelo, sem a luz do sol, sem os familiares, sem a rotina de antes, um a um, começam a vir para a superfície.
Saem de lá com óculos de sol potentes; porque desacostumaram com a luz do sol, e diga-se de passagem, a gente se acostuma com a escuridão. E isso vale de metáfora. Quantas vezes somos tomados pelos infortúnios da vida, que não são poucos, que esperamos que o próximo evento, será novamente uma cacetada. Quem já não viu um cachorro na rua, que quando nos aproximamos, sai correndo, esperando que vamos enxotá-lo. Já está tão acostumado a ser maltratado, e mal-tratado, que qualquer aproximação, ele vê como ameaça. Nos acostumamos com a escuridão.
No entanto, a escuridão da mina, faz com que cada um tenha que contribuir com sua própria luz. Os grupos são complementares. E estou doida pra saber as táticas que eles inventaram lá embaixo para sobreviver. Um deve ter assumido o lugar de líder do grupo, o outro, de ajudante, o outro, de jogador, o outro de esportista, o outro, de mal-humorado, e que trouxesse desse modo, assunto para os demais, e assim, passaram e sobreviveram a esta prova agonizante.
Viva o Imaginário. Discutia com minha irmã, por estes dias, sobre o valor deste registro na nossa estrutura. Sem o Imaginário, viramos pó, padecemos, psicotizamos. Quando enfrentamos um desafio, se o Imaginário não der conta, se a gente não tiver recurso pra acreditar, pra visualizar, pra preencher, (imaginariamente) nossa falta, ficamos à beira do abismo, surtamos. O Imaginário é, portanto, o próprio resgate. O que nos tira da REALidade muitas vezes insuportável; o que nos permite dar um passo a mais, mesmo sem a menor garantia. Acreditar no encontro, como dizia Vinícius... que “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Desencontro, depois do encontro, mesmo depois de perdido, mas resgatado.
Quando estamos lá embaixo, no próprio abismo, se não tivermos esse recurso, que enlaça, que se junta com o simbólico, perdemos o rumo, o eixo, a estrutura. Ficamos perdidos, mesmo achados; na escuridão, mesmo no claro; enterrados, mesmo na superfície. Nos acostumamos com a escuridão. E ela toma conta, se não tomarmos conta dela. Apagar a luz, mas depois acendê-la. Nem que imaginariamente.
Depois de sessenta e nove dias de pesadelo, sem a luz do sol, sem os familiares, sem a rotina de antes, um a um, começam a vir para a superfície.
Saem de lá com óculos de sol potentes; porque desacostumaram com a luz do sol, e diga-se de passagem, a gente se acostuma com a escuridão. E isso vale de metáfora. Quantas vezes somos tomados pelos infortúnios da vida, que não são poucos, que esperamos que o próximo evento, será novamente uma cacetada. Quem já não viu um cachorro na rua, que quando nos aproximamos, sai correndo, esperando que vamos enxotá-lo. Já está tão acostumado a ser maltratado, e mal-tratado, que qualquer aproximação, ele vê como ameaça. Nos acostumamos com a escuridão.
No entanto, a escuridão da mina, faz com que cada um tenha que contribuir com sua própria luz. Os grupos são complementares. E estou doida pra saber as táticas que eles inventaram lá embaixo para sobreviver. Um deve ter assumido o lugar de líder do grupo, o outro, de ajudante, o outro, de jogador, o outro de esportista, o outro, de mal-humorado, e que trouxesse desse modo, assunto para os demais, e assim, passaram e sobreviveram a esta prova agonizante.
Viva o Imaginário. Discutia com minha irmã, por estes dias, sobre o valor deste registro na nossa estrutura. Sem o Imaginário, viramos pó, padecemos, psicotizamos. Quando enfrentamos um desafio, se o Imaginário não der conta, se a gente não tiver recurso pra acreditar, pra visualizar, pra preencher, (imaginariamente) nossa falta, ficamos à beira do abismo, surtamos. O Imaginário é, portanto, o próprio resgate. O que nos tira da REALidade muitas vezes insuportável; o que nos permite dar um passo a mais, mesmo sem a menor garantia. Acreditar no encontro, como dizia Vinícius... que “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Desencontro, depois do encontro, mesmo depois de perdido, mas resgatado.
Quando estamos lá embaixo, no próprio abismo, se não tivermos esse recurso, que enlaça, que se junta com o simbólico, perdemos o rumo, o eixo, a estrutura. Ficamos perdidos, mesmo achados; na escuridão, mesmo no claro; enterrados, mesmo na superfície. Nos acostumamos com a escuridão. E ela toma conta, se não tomarmos conta dela. Apagar a luz, mas depois acendê-la. Nem que imaginariamente.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
ANGÚSTIA
Qual seria o próximo tema da coluna? Pergunta-me o professor. Respondo, então: angústia! Já que tenho falado e escrito sobre isso, nada mais justo do que falar um pouco disso que não pode ser falado.
A angústia é aquilo que acarreta a falta de palavras. Aquele afeto de desprazer, que se manifesta na gente, em lugar de um sentimento inconsciente, na espera de algo que a gente não pode nomear.
O que te angustia? A primeira sensação é que a gente não pode descrever o que nos provoca angústia. Porém, a gente sente. Sente no corpo. Corpo erógeno, corpo de bordas, corpo pulsionalizado. A gente sente um aperto no peito, uma sensação ruim, um pressentimento. Pré-sentimento. Há toda uma tentativa, algumas vezes, bem sucedida, de aplacar, de fazer desaparecer qualquer manifestação de angústia. Vemos isso no universo médico, na televisão, nas livrarias, no dia-a-dia. Não se suporta a escuta dela. Quando se pergunta: “tudo bem com você?”; acostumamos o ouvido a escutar: “tudo, e você?”. Cruzamos os dedos para que a resposta seja essa e que se a pessoa de fato não estiver com tudo bem, que não seja conosco que ela divida.
Aquilo que a palavra não alcança, aquilo que parece não ter remédio. Mas, como toda indústria farmacológica de tola não tem nada, inventam a cada dia “soluções” pra abafar esse “probleminha”. Novos medicamentos, novas fórmulas, novos pacotes, novas soluções; tudo no estilo: 3 em 1. “Acabe com a angústia, o mal-estar e o cansaço!”. “Leve, leve!!! É imperdível!”. Tudo isso pra evitar o surgimento deste afeto.
Grande oferta de diagnósticos e medicamentos, novos gadgets de um mercado que promete solução para a inquietação. Inquietação porque há algo que não consegue se aquietar e ao mesmo tempo, que não se consegue falar. Há um convite em gozar com a angústia, há uma domesticação dela, como diz Melman. E eles mudam de nome, todos os dias. Não é a toa que a indústria farmacológica cresceu, cresce e cresce a cada dia. Fatia gordinha do mercado, e que talvez esteja tão gorda porque se alimenta da gente. Saída que tampona, que disfarça e que de des/angústia, não tem nada.
O que a gente pode falar da angústia? Que não se pode falar dela. Que ela vai além do que a palavra pode circunscrever. No entanto, sabemos que ela é um afeto, o afeto que não engana. A angústia é da ordem de uma certeza, o que a torna ainda mais difícil de suportar. O que nos deixa aniquilados.
A angústia que sentimos não é que aquilo que a gente sente na iminência de que algo vai faltar. Pra isso, a gente conta com outros recursos, faz outros laços. A angústia é aquela que a gente sente quando se vê como algo, não como alguém. E no sentido do “como” alguém, comidos, engolidos. Pura carne, puro objeto. Talvez aquela carne, que já virou almôndega, e que alimenta os cofrinhos da fatia gordinha, lembra? Quando somos reduzidos a um pedaço, quando o Outro busca a minha perda, porque tenta restituir sua própria falta. Quando sou colocado neste lugar, desapareço como sujeito, e surjo, como puro objeto. Fiapo de carne no dente do Outro. Diante disso: silêncio.
A angústia é aquilo que acarreta a falta de palavras. Aquele afeto de desprazer, que se manifesta na gente, em lugar de um sentimento inconsciente, na espera de algo que a gente não pode nomear.
O que te angustia? A primeira sensação é que a gente não pode descrever o que nos provoca angústia. Porém, a gente sente. Sente no corpo. Corpo erógeno, corpo de bordas, corpo pulsionalizado. A gente sente um aperto no peito, uma sensação ruim, um pressentimento. Pré-sentimento. Há toda uma tentativa, algumas vezes, bem sucedida, de aplacar, de fazer desaparecer qualquer manifestação de angústia. Vemos isso no universo médico, na televisão, nas livrarias, no dia-a-dia. Não se suporta a escuta dela. Quando se pergunta: “tudo bem com você?”; acostumamos o ouvido a escutar: “tudo, e você?”. Cruzamos os dedos para que a resposta seja essa e que se a pessoa de fato não estiver com tudo bem, que não seja conosco que ela divida.
Aquilo que a palavra não alcança, aquilo que parece não ter remédio. Mas, como toda indústria farmacológica de tola não tem nada, inventam a cada dia “soluções” pra abafar esse “probleminha”. Novos medicamentos, novas fórmulas, novos pacotes, novas soluções; tudo no estilo: 3 em 1. “Acabe com a angústia, o mal-estar e o cansaço!”. “Leve, leve!!! É imperdível!”. Tudo isso pra evitar o surgimento deste afeto.
Grande oferta de diagnósticos e medicamentos, novos gadgets de um mercado que promete solução para a inquietação. Inquietação porque há algo que não consegue se aquietar e ao mesmo tempo, que não se consegue falar. Há um convite em gozar com a angústia, há uma domesticação dela, como diz Melman. E eles mudam de nome, todos os dias. Não é a toa que a indústria farmacológica cresceu, cresce e cresce a cada dia. Fatia gordinha do mercado, e que talvez esteja tão gorda porque se alimenta da gente. Saída que tampona, que disfarça e que de des/angústia, não tem nada.
O que a gente pode falar da angústia? Que não se pode falar dela. Que ela vai além do que a palavra pode circunscrever. No entanto, sabemos que ela é um afeto, o afeto que não engana. A angústia é da ordem de uma certeza, o que a torna ainda mais difícil de suportar. O que nos deixa aniquilados.
A angústia que sentimos não é que aquilo que a gente sente na iminência de que algo vai faltar. Pra isso, a gente conta com outros recursos, faz outros laços. A angústia é aquela que a gente sente quando se vê como algo, não como alguém. E no sentido do “como” alguém, comidos, engolidos. Pura carne, puro objeto. Talvez aquela carne, que já virou almôndega, e que alimenta os cofrinhos da fatia gordinha, lembra? Quando somos reduzidos a um pedaço, quando o Outro busca a minha perda, porque tenta restituir sua própria falta. Quando sou colocado neste lugar, desapareço como sujeito, e surjo, como puro objeto. Fiapo de carne no dente do Outro. Diante disso: silêncio.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
A MINA
Imagine que você está num lugar escuro, sem luz do sol, portanto sem diferenciação do dia ou da noite. Perdeu-se a rotina, os horários das refeições, o objetivo da sua missão. Sua sorte é: outras 32 pessoas estão com você neste lugar. Ainda bem que não se está sozinho, o que eu diria que seria estar a um passo da loucura. Estar sem um Outro que norteie o que está acontecendo e venha acalmar e dizer que tudo vai ficar bem. Plena dor do desamparo de que falava Freud. Atualizada e revivida com tudo o que se tem direito. À falta de demanda, à escuridão de que viemos, o útero.
Querendo encontrar ouro, deram de cara com a escuridão. Foi assim que os mineiros do Chile foram parar na mina escura a 700 metros da superfície.
O mundo inteiro se comoveu com a tragédia dos mineiros. E sem dúvida, os primeiros dias foram os de maior angústia. Sem saber se iriam encontrá-los, sem saber se morreriam de inanição, sem saber se notariam sua falta, perderam cada um, cerca de 10 quilos já nos primeiros dias. Soterrados à mercê de que alguém viesse em socorro, sem um Grande Outro que pudesse intervir, ficaram angustiados e acredito que se estivessem sozinhos, prefeririam a morte à espera.
Em experiência feita com candidatos, que acredito serem candidatos à angústia, que ficaram cerca de quatro dias num quarto escuro sem janelas, sem a luz do sol, sem televisão, sem ninguém para conversar, em isolamento total; tiveram alucinações, auditivas, visuais e sensoriais, onde uma das participantes disse ter sua cama molhada e por isso clamava por intervenção. Clamava por alguém que viesse trocar sua cama. Alguém. Qualquer um. Um. Alguém.
Histórias não faltam de pessoas que se viram sozinhas num lugar estranho, como o caso do filme Náufrago, em que Tom Hanks elege Wilson, uma bola de vôlei, como seu único e melhor amigo, com quem ele pudesse compartilhar as palavras e os efeitos de sua solidão. Solidão pré-wilson, diga-se de passagem. Poder dizer para o amigo-bola como se sentia e poder se remeter a um outro já é por si só calmante, e bem menos psicótico. Wilson tinha, inclusive, expressão. O que serve de resposta, espelho. Não é a toa que se colocaram psicólogos e médicos de plantão para que os mineiros, mesmo na escuridão, possam ser ouvidos de suas angústias; e não enlouqueçam maciçamente.
Todos nascemos numa mina, que pode sim, ser cercada de ouro e metais caros, mas que se não tiver alguém para nos resgatar e nos fazer demanda, enlouqueceremos como mineiros na mina, e crianças sem pais; como um cachorro sem dono, que vive a vagar solitário pelas ruas, como um palhaço sem platéia, como um bebê sem colo. Não tendo a quem se remeter, perdemos o norte, a direção, a bússola. Não sabemos nem dar as direções para sermos resgatados.
Precisamos de um outro. De um Grande Outro que venha em nosso socorro e que nos estenda a mão, que nos dirija o olhar, que nos invoque a voz e nos resgate da escuridão de onde viemos, para que possamos chorar com a luz extra-uterina, um Outro que nos resgate da mina com a altura do maior edifício, porém, abaixo da terra, pra que se possa diferenciar o dia da noite, e que da escuridão, se faça luz.
Querendo encontrar ouro, deram de cara com a escuridão. Foi assim que os mineiros do Chile foram parar na mina escura a 700 metros da superfície.
O mundo inteiro se comoveu com a tragédia dos mineiros. E sem dúvida, os primeiros dias foram os de maior angústia. Sem saber se iriam encontrá-los, sem saber se morreriam de inanição, sem saber se notariam sua falta, perderam cada um, cerca de 10 quilos já nos primeiros dias. Soterrados à mercê de que alguém viesse em socorro, sem um Grande Outro que pudesse intervir, ficaram angustiados e acredito que se estivessem sozinhos, prefeririam a morte à espera.
Em experiência feita com candidatos, que acredito serem candidatos à angústia, que ficaram cerca de quatro dias num quarto escuro sem janelas, sem a luz do sol, sem televisão, sem ninguém para conversar, em isolamento total; tiveram alucinações, auditivas, visuais e sensoriais, onde uma das participantes disse ter sua cama molhada e por isso clamava por intervenção. Clamava por alguém que viesse trocar sua cama. Alguém. Qualquer um. Um. Alguém.
Histórias não faltam de pessoas que se viram sozinhas num lugar estranho, como o caso do filme Náufrago, em que Tom Hanks elege Wilson, uma bola de vôlei, como seu único e melhor amigo, com quem ele pudesse compartilhar as palavras e os efeitos de sua solidão. Solidão pré-wilson, diga-se de passagem. Poder dizer para o amigo-bola como se sentia e poder se remeter a um outro já é por si só calmante, e bem menos psicótico. Wilson tinha, inclusive, expressão. O que serve de resposta, espelho. Não é a toa que se colocaram psicólogos e médicos de plantão para que os mineiros, mesmo na escuridão, possam ser ouvidos de suas angústias; e não enlouqueçam maciçamente.
Todos nascemos numa mina, que pode sim, ser cercada de ouro e metais caros, mas que se não tiver alguém para nos resgatar e nos fazer demanda, enlouqueceremos como mineiros na mina, e crianças sem pais; como um cachorro sem dono, que vive a vagar solitário pelas ruas, como um palhaço sem platéia, como um bebê sem colo. Não tendo a quem se remeter, perdemos o norte, a direção, a bússola. Não sabemos nem dar as direções para sermos resgatados.
Precisamos de um outro. De um Grande Outro que venha em nosso socorro e que nos estenda a mão, que nos dirija o olhar, que nos invoque a voz e nos resgate da escuridão de onde viemos, para que possamos chorar com a luz extra-uterina, um Outro que nos resgate da mina com a altura do maior edifício, porém, abaixo da terra, pra que se possa diferenciar o dia da noite, e que da escuridão, se faça luz.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
A DISNEY DA VIDA REAL
A Disney é mágica. Faz você acreditar (pelo menos por algumas horas), que a fantasia é possível. Não é por acaso que o nome do parque principal se chama Reino Mágico e também não é a toa que o logo é: “onde o sonho se torna realidade”. E é verdade. Com fogos de artifício dançando conforme a música, com direito a Pato Donald e Pateta andando pra lá e pra cá, como alguém que está na própria casa (e de fato estão mesmo), é difícil não acreditar que se está vivendo um conto de fadas. Ainda mais quando você encontra a própria Cinderela na carruagem, desfilando, em plena rua. Acho inclusive que os funcionários são mesmo multados se não estiverem sorrindo e acenando para os visitantes o tempo todo. É um tipo de multa por não mostrar a felicidade. Os bonecos e personagens demonstram alegria o tempo todo, sorriem, e fazem você acreditar que aquele é o melhor lugar do mundo para se trabalhar. Se é que se pode chamar de trabalho. Que delícia, poder vender fantasia, acreditar nela e ainda lucrar com ela. Muita cor, muito brilho, um mundo cor-de-rosa; e azul celeste também.
Talvez, a maior função da fantasia, seja fazer a gente acreditar. Acreditar na possibilidade das coisas. Talvez os homens não casem mesmo com a Cinderela, nem as mulheres com o príncipe, mas que a gente possa pelo menos enxergar as qualidades do “uma vez príncipe” de vez em quando.
Toda grande conquista, foi alguma vez considerada impossível. Avanços da tecnologia, por exemplo, quando poderíamos imaginar que seria possível conversar com alguém do outro lado do mundo através de uma tela de computador, e vê-la, em tempo real. Sim, isso já foi impossível, no entanto hoje, é comum, apesar de ter gente que ainda não acredita nisso. Certamente quem nunca acreditou, foi mais certamente ainda incapaz de criar.
Pessoas que julgam os sonhos tão impossíveis, que jamais lutam por eles. Não fazem laço, acreditam que seu empenho não faz diferença, passam pela vida sem atuar e pior ainda, sem achar nenhuma graça. Vão para um lugar diferente achando tudo igual. Tudo tão igual, tão igual, que a vida acaba passando igual mesmo, sem nenhuma diferença e satisfação.
É claro que a gente não se sacia permanentemente com a realização da fantasia, a gente quer logo outra coisa. Afinal, desejo é sempre desejo de desejo; mas que gostoso quando a gente ainda pode ser feliz com algo que queria muito, que a gente ainda se satisfaça com aquela comida que estava com vontade de comer, que possa curtir o lugar onde queria chegar. Seja lá a Disneylândia ou não.
Talvez, a maior função da fantasia, seja fazer a gente acreditar. Acreditar na possibilidade das coisas. Talvez os homens não casem mesmo com a Cinderela, nem as mulheres com o príncipe, mas que a gente possa pelo menos enxergar as qualidades do “uma vez príncipe” de vez em quando.
Toda grande conquista, foi alguma vez considerada impossível. Avanços da tecnologia, por exemplo, quando poderíamos imaginar que seria possível conversar com alguém do outro lado do mundo através de uma tela de computador, e vê-la, em tempo real. Sim, isso já foi impossível, no entanto hoje, é comum, apesar de ter gente que ainda não acredita nisso. Certamente quem nunca acreditou, foi mais certamente ainda incapaz de criar.
Pessoas que julgam os sonhos tão impossíveis, que jamais lutam por eles. Não fazem laço, acreditam que seu empenho não faz diferença, passam pela vida sem atuar e pior ainda, sem achar nenhuma graça. Vão para um lugar diferente achando tudo igual. Tudo tão igual, tão igual, que a vida acaba passando igual mesmo, sem nenhuma diferença e satisfação.
É claro que a gente não se sacia permanentemente com a realização da fantasia, a gente quer logo outra coisa. Afinal, desejo é sempre desejo de desejo; mas que gostoso quando a gente ainda pode ser feliz com algo que queria muito, que a gente ainda se satisfaça com aquela comida que estava com vontade de comer, que possa curtir o lugar onde queria chegar. Seja lá a Disneylândia ou não.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
NÃO BASTA SER PAI
Quase todas as mulheres se preparam precocemente para a função da maternidade. Ganham bonequinhas, mamadeirinhas, roupinhas, chuquinhas. Aprendem a fazer ninar as bonecas, tão, tão bem, que no momento em que a gente pega um bebê de verdade no colo pela primeira vez, aquilo parece ser mais do que natural. Parece instintivo.
Mas o que estou eu aqui falando de ser mãe se o tema da coluna é pai?
Ah, o pai... com tanta simbiose numa relação de tanta espera da mãe com o bebê, (PAI) função pela qual ela esperou desde que se conhece por menina, (PAI) e que ganhou a primeira boneca, (PAI) parece quase impossível haver separação entre essas duas partes (PAI). Simbiose gostosa, (PAI) que parece ser a certeza da reevindicação de todas as faltas sofridas até então (PAI), o ressarcimento do que foi perdido. Mãe e filho estão lá, apaixonados um pelo outro,(PAI). Porém, junção demais tem lá seus problemas (PAI). Pai é aquele que separa, aquele que se coloca no meio, aquele que faz cisão.
Lembro de um livro que comprei que falava da função paterna. Sua capa fazia de três giletes, a cara de um pai. Função de corte, de posicionamento. O pai priva a mãe de seu filhinho-falinho e a convoca pra responder de outro lugar. Convoca a mãe pra que possa satisfazê-la de outra forma e pra que saia dessa redondice em relação ao filhinho.
Discutia esses dias, num grupo sobre os pais bananas. Aquele que não tem autoridade, que deixa tudo, que abre mão do seu desejo, que permite demais. Os bananas que me perdoem, mas firmeza é fundamental. Em todos os sentidos.
Ditado sábio aquele: “não basta ser pai, tem que participar”. Ativamente, diga-se de passagem. Aquele que se importa, que coloca. Sim, coloca.
Pai, aquele que interdita; aquele que põe uma cerquinha ao redor da mãe e diz: “vem cá que agora é a minha vez”. Aquele que deseja a mãe, que mostra pro filho que a mãe é a mulher dele e que se o baby quiser um amor assim, igual àquele, que ele cresça, apareça e busque e forme sua própria família. Ser PAI. Proibir, Amar e Interditar.
Atender a demanda de gozo da mãe. Acalmar o corpo da mãe; isso é o que um pai faz. Se isso não acontece, ela busca satisfação e completude com o filhinho-falinho e as coisas acabam desandando de vez.
Convocar a mãe pra responder como mulher, como desejante. E o que quer a mãe, afinal? O que a mãe quer é o desejo do pai. Que ele compareça; que dê conta do desejo. Com o desejo, ela fica interditada, proibida, o que faz um bem danado para o bebê, porque permite então que ele faça laço com outras pessoas, e não fique aprisionado. Amor que proíbe e que libera.
Não basta ser pai, tem que interditar.
Mas o que estou eu aqui falando de ser mãe se o tema da coluna é pai?
Ah, o pai... com tanta simbiose numa relação de tanta espera da mãe com o bebê, (PAI) função pela qual ela esperou desde que se conhece por menina, (PAI) e que ganhou a primeira boneca, (PAI) parece quase impossível haver separação entre essas duas partes (PAI). Simbiose gostosa, (PAI) que parece ser a certeza da reevindicação de todas as faltas sofridas até então (PAI), o ressarcimento do que foi perdido. Mãe e filho estão lá, apaixonados um pelo outro,(PAI). Porém, junção demais tem lá seus problemas (PAI). Pai é aquele que separa, aquele que se coloca no meio, aquele que faz cisão.
Lembro de um livro que comprei que falava da função paterna. Sua capa fazia de três giletes, a cara de um pai. Função de corte, de posicionamento. O pai priva a mãe de seu filhinho-falinho e a convoca pra responder de outro lugar. Convoca a mãe pra que possa satisfazê-la de outra forma e pra que saia dessa redondice em relação ao filhinho.
Discutia esses dias, num grupo sobre os pais bananas. Aquele que não tem autoridade, que deixa tudo, que abre mão do seu desejo, que permite demais. Os bananas que me perdoem, mas firmeza é fundamental. Em todos os sentidos.
Ditado sábio aquele: “não basta ser pai, tem que participar”. Ativamente, diga-se de passagem. Aquele que se importa, que coloca. Sim, coloca.
Pai, aquele que interdita; aquele que põe uma cerquinha ao redor da mãe e diz: “vem cá que agora é a minha vez”. Aquele que deseja a mãe, que mostra pro filho que a mãe é a mulher dele e que se o baby quiser um amor assim, igual àquele, que ele cresça, apareça e busque e forme sua própria família. Ser PAI. Proibir, Amar e Interditar.
Atender a demanda de gozo da mãe. Acalmar o corpo da mãe; isso é o que um pai faz. Se isso não acontece, ela busca satisfação e completude com o filhinho-falinho e as coisas acabam desandando de vez.
Convocar a mãe pra responder como mulher, como desejante. E o que quer a mãe, afinal? O que a mãe quer é o desejo do pai. Que ele compareça; que dê conta do desejo. Com o desejo, ela fica interditada, proibida, o que faz um bem danado para o bebê, porque permite então que ele faça laço com outras pessoas, e não fique aprisionado. Amor que proíbe e que libera.
Não basta ser pai, tem que interditar.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
SÓ UM TAPINHA, DÓI?
Esta semana, corre a notícia de um projeto de lei que proíbe os castigos corporais e inclusive as palmadinhas em crianças.
Sou do tempo em que conhecia os meus limites através do olhar da minha mãe. Se estávamos na casa de alguém, e passávamos dos limites na bagunça, mamãe olhava com um olhar menorzinho, meio de canto de olho; pronto. Era o suficiente pra impor o limite que estava faltando. Dissimetria. Ela era maior, mais forte, mais madura, e mais do que tudo isso, ela era minha mãe.
Ela mãe, eu filha. Simples assim. Diferença entre os envolvidos. Nós não éramos iguais. Quando eu não queria parar a brincadeira, que se deixasse ia até à meia-noite, ELA sabia o sono e o cansaço que eu teria que enfrentar no dia seguinte na hora de ir pra escola, e cortava o meu barato. Para meu próprio bem. Sem deixar o Princípio do Prazer ficar rolando solto e imperativo por aí. O Princípio da Realidade precisava ser mostrado, imposto, até porque ele se impõe mesmo, e não era por isso que acabava o gozo. Instauração da rotina. Hora de brincar, hora de comer, hora de dormir, trocar um prazer por uma necessidade que também é prazerosa e que não pode ser negligenciada. Mas eu não sabia disso. Foi ela que me mostrou. Foi ela quem me botou no mundo, ela é quem deveria saber o que é melhor pra mim. Mesmo quando eu queria medir força, ela se impôs. Que bom. Dissimetria. As partes não são iguais. Ela mãe, eu filha. Simples assim.
Uma criança, na sua birrinha da “fase do não”, pode até tentar, espernear, medir força, chorar, mas quem deve mandar, é o adulto. É esse Outro grandão que deve tomar as rédeas da educação e mostrar o caminho. Por mais estranho que isso possa parecer, e de apesar de ela não saber disso, a criança não quer que lhe atendam todas as demandas, ela precisa é de parada. Hora de brincar, hora de dormir, hora de comer. Se ela não tem posicionamento, não sabe pra onde ir, fica perdida.
Projeto pra se acabar com a palmada. Não coloco aqui o favoritismo da palmada, nem a falta dela. A favor da dissimetria, sim. Ela, mãe; eu, filha. Simples assim. Apanhei duas vezes na minha vida. Com razão. E pra falar a verdade, acredito que tenha doído muito mais na minha mãe do que em mim.
Vi outro dia, no mercado, um projeto de pessoa de cinco anos, mandando, a mãe calar a boca. Sim, mandando; e sim, com estas palavras. Fiquei tão indignada na hora que quase entreguei um cartão. Como assim, mandar a mãe calar a boca? Se agora é calar a boca, o que vai ser daqui a dois anos? Hoje, a infância é colocada em redoma de vidro, ou melhor, de cristal, como aquele vaso bonito que só dá pra olhar, mas que ninguém pensa em relar. E vira lei. O que acontece é que logo, logo elas aprendem este poder nas mãos e fazem uso disso. Elas próprias ameaçam os pais. Caminho da perversão. O não, não é não de verdade. O não é quase sim. “Olha, não faça isso, mas se fizer, faça só um pouquinho”. Duplo sentido, “não pode, pode”, é não, mas é sim. E com a falta de posicionamento e dissimetria, um tapinha dói, dói muito, nos pais.
Infância colocada em redoma de vidro, como o vaso bonito, na estante, na altura dos grandes.
A falta do tapinha, do posicionamento. Confusão de papéis, tudo igual, tudo igual.
Não. Não é igual. Dissimetria. Ela mãe, eu filha.
Sou do tempo em que conhecia os meus limites através do olhar da minha mãe. Se estávamos na casa de alguém, e passávamos dos limites na bagunça, mamãe olhava com um olhar menorzinho, meio de canto de olho; pronto. Era o suficiente pra impor o limite que estava faltando. Dissimetria. Ela era maior, mais forte, mais madura, e mais do que tudo isso, ela era minha mãe.
Ela mãe, eu filha. Simples assim. Diferença entre os envolvidos. Nós não éramos iguais. Quando eu não queria parar a brincadeira, que se deixasse ia até à meia-noite, ELA sabia o sono e o cansaço que eu teria que enfrentar no dia seguinte na hora de ir pra escola, e cortava o meu barato. Para meu próprio bem. Sem deixar o Princípio do Prazer ficar rolando solto e imperativo por aí. O Princípio da Realidade precisava ser mostrado, imposto, até porque ele se impõe mesmo, e não era por isso que acabava o gozo. Instauração da rotina. Hora de brincar, hora de comer, hora de dormir, trocar um prazer por uma necessidade que também é prazerosa e que não pode ser negligenciada. Mas eu não sabia disso. Foi ela que me mostrou. Foi ela quem me botou no mundo, ela é quem deveria saber o que é melhor pra mim. Mesmo quando eu queria medir força, ela se impôs. Que bom. Dissimetria. As partes não são iguais. Ela mãe, eu filha. Simples assim.
Uma criança, na sua birrinha da “fase do não”, pode até tentar, espernear, medir força, chorar, mas quem deve mandar, é o adulto. É esse Outro grandão que deve tomar as rédeas da educação e mostrar o caminho. Por mais estranho que isso possa parecer, e de apesar de ela não saber disso, a criança não quer que lhe atendam todas as demandas, ela precisa é de parada. Hora de brincar, hora de dormir, hora de comer. Se ela não tem posicionamento, não sabe pra onde ir, fica perdida.
Projeto pra se acabar com a palmada. Não coloco aqui o favoritismo da palmada, nem a falta dela. A favor da dissimetria, sim. Ela, mãe; eu, filha. Simples assim. Apanhei duas vezes na minha vida. Com razão. E pra falar a verdade, acredito que tenha doído muito mais na minha mãe do que em mim.
Vi outro dia, no mercado, um projeto de pessoa de cinco anos, mandando, a mãe calar a boca. Sim, mandando; e sim, com estas palavras. Fiquei tão indignada na hora que quase entreguei um cartão. Como assim, mandar a mãe calar a boca? Se agora é calar a boca, o que vai ser daqui a dois anos? Hoje, a infância é colocada em redoma de vidro, ou melhor, de cristal, como aquele vaso bonito que só dá pra olhar, mas que ninguém pensa em relar. E vira lei. O que acontece é que logo, logo elas aprendem este poder nas mãos e fazem uso disso. Elas próprias ameaçam os pais. Caminho da perversão. O não, não é não de verdade. O não é quase sim. “Olha, não faça isso, mas se fizer, faça só um pouquinho”. Duplo sentido, “não pode, pode”, é não, mas é sim. E com a falta de posicionamento e dissimetria, um tapinha dói, dói muito, nos pais.
Infância colocada em redoma de vidro, como o vaso bonito, na estante, na altura dos grandes.
A falta do tapinha, do posicionamento. Confusão de papéis, tudo igual, tudo igual.
Não. Não é igual. Dissimetria. Ela mãe, eu filha.
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