Adeus ano velho, feliz ano novo. Que tudo se realize no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.
Musiquinha quase folclórica, já; no entanto, munida de ótimos desejos. E que o ano comece mesmo, pra valer, com tudo isso.
Muita saúde, porque sem ela, a gente pode ter muito, sem poder usufruir. Vão.
E entra ano, sai ano, a musiquinha nunca sai de moda. É sempre atual. Que tudo se realize no ano que vai nascer. E a gente se pergunta; será que nunca estarei realizado? Será que um dia haverá um ano em que eu não deseje, e que não cante: “que tudo se realize no ano que vai nascer”? Ah, sim... Há de haver algum lugar, um confuso casarão... onde os sonhos serão reais, e a vida... não. Sábio Chico. E nesse dia, a vida... não.
Desejo é sempre desejo de desejo. E é por isso que entra ano e sai ano, “que tudo se realize...”.
Quando a gente encontra aquilo, já é outra coisa. E assim caminha a humanidade, e a pulsão. Dando voltas e contornando os objetos.
Esse ano eu quero um carro. Batalho por ele, conquisto! E ano que vem, eu quero uma casa! Aí, eu quero mudar os móveis, quero casar, eu quero ter um filho, quero ter dois, quero mudar de cidade, quero entrar na faculdade, quero sair, quero reformar a casa, quero adotar, quero separar, quero emagrecer, quero encontrar o par perfeito, quero trocar de carro. De novo.
Dando voltas e realizando. Gozo. Prazer.
Um desejo pode se realizar, nunca se satisfazer.
E que tudo se realize no ano que vai nascer.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
2010
Ano agitado.
No Brasil, uma mulher na Presidência, o fim e o começo de um novo/velho mandato.
De palhaço candidato à candidata que num lapso fabuloso disse que queria defender toda aquela corrupção. Vote em Tiririca, pior que tá, não fica. Talvez ele tenha razão.
Goleiro acusado de matar a namorada / mãe do filho / amante / atriz pornô, ou sei lá o que.
Milagre no Chile. Mineiros são resgatados depois de dois meses soterrados. Viva o imaginário que fez o resgate antes.
Guerra urbana no Rio. Com vitória da polícia. Quem diria? Diria eu, graças a Deus.
Esperança. A integridade nunca vai sair de moda. Honestidade também.
Pense na sua empresa. Você quer alguém que trabalhe roubando? E na sua casa? Alguém que mexa nas suas coisas?
Não. Nem nas amizades, nem nas relações profissionais, nem nas pessoais.
Respeito, honestidade, honra. Pode-se até divulgar que são coisas fora de moda, e a gente até se acostumar com a corrupção, mas princípios são bases que se constroem em casa, com exemplo e consistência.
Base. Não é a toa que a história do Brasil de corrupção e mais corrupção seja tão... acostumada. Como colônia de exploração, cada um foi acostumado a “tirar o seu”, e o resto é que se exploda.
O importante é explorar. Brigar por gabinetes mais luxuosos, mesas feitas com madeira de lei e cadeiras de couro. E as crianças nas filas dos hospitais, esperando atendimento...
No Brasil, se a mulher for estuprada e estiver usando saia no momento do crime, pode ser ela, considerada culpada.
Diferente da Suécia, que transar sem camisinha, pode ser considerado crime.
De um extremo ao outro. Um extremo ao outro.
Não pode, pode... Não, não pode, nenhuma vez.
De novo, a integridade não sai de moda. Do dicionário, um ser humano íntegro não se vende por situações momentâneas, infringindo as normas e leis, prejudicando alguém por um motivo fútil e incoerente. A moral de uma pessoa não tem preço e é indiscutível.
2010, ano intenso. Vitória de “ao menos um”. E se em 2011 houver alguém pra erguer esta bandeira. Vai virar notícia.
Faço votos.
No Brasil, uma mulher na Presidência, o fim e o começo de um novo/velho mandato.
De palhaço candidato à candidata que num lapso fabuloso disse que queria defender toda aquela corrupção. Vote em Tiririca, pior que tá, não fica. Talvez ele tenha razão.
Goleiro acusado de matar a namorada / mãe do filho / amante / atriz pornô, ou sei lá o que.
Milagre no Chile. Mineiros são resgatados depois de dois meses soterrados. Viva o imaginário que fez o resgate antes.
Guerra urbana no Rio. Com vitória da polícia. Quem diria? Diria eu, graças a Deus.
Esperança. A integridade nunca vai sair de moda. Honestidade também.
Pense na sua empresa. Você quer alguém que trabalhe roubando? E na sua casa? Alguém que mexa nas suas coisas?
Não. Nem nas amizades, nem nas relações profissionais, nem nas pessoais.
Respeito, honestidade, honra. Pode-se até divulgar que são coisas fora de moda, e a gente até se acostumar com a corrupção, mas princípios são bases que se constroem em casa, com exemplo e consistência.
Base. Não é a toa que a história do Brasil de corrupção e mais corrupção seja tão... acostumada. Como colônia de exploração, cada um foi acostumado a “tirar o seu”, e o resto é que se exploda.
O importante é explorar. Brigar por gabinetes mais luxuosos, mesas feitas com madeira de lei e cadeiras de couro. E as crianças nas filas dos hospitais, esperando atendimento...
No Brasil, se a mulher for estuprada e estiver usando saia no momento do crime, pode ser ela, considerada culpada.
Diferente da Suécia, que transar sem camisinha, pode ser considerado crime.
De um extremo ao outro. Um extremo ao outro.
Não pode, pode... Não, não pode, nenhuma vez.
De novo, a integridade não sai de moda. Do dicionário, um ser humano íntegro não se vende por situações momentâneas, infringindo as normas e leis, prejudicando alguém por um motivo fútil e incoerente. A moral de uma pessoa não tem preço e é indiscutível.
2010, ano intenso. Vitória de “ao menos um”. E se em 2011 houver alguém pra erguer esta bandeira. Vai virar notícia.
Faço votos.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
A CIDADE DO CRISTO
Sobrancelhas levantadas, olhos arregalados, cabeça projetada para frente. Ouvidos mais atentos, arrepio, atenção exagerada, o coração bate forte, como se pudesse ser escutado; a boca seca, há tremor. Adrenalina a mil.
Medo. Palavra conhecida de quem tem vivido e observado o estado de tensão da cidade maravilhosa. Mas quem durante a história sentiu medo, estava do lado errado; éramos nós.
O pai perdeu a sua função. Cristo está de braços abertos, calado.
Com o crescimento da violência, gera-se mais violência. Não é à toa a máxima: agressividade gera agressividade.
O Estado perdeu seu poder. Não há um Outro que intervenha; que barre. Aliás, o sujeito não é barrado. Pode-se tudo, a prisão é uma “continuidade sem lei” de onde se pode dar ordens, basta ter um celular, e para conseguí-lo, vale enfiá-lo em certos orifícios. E a palavra é dada. Palavra; de merda.
Foi-se acostumando que todos têm um preço. Mas o preço... é branco.
Aonde está o Coronel Nascimento? Alguém que diga: “auto, lá!”?. Que não seja corruptível, que não tenha preço. Que não venda ideais, ou melhor, que pague o preço por eles.
Com a ação do BOPE, parece que alguém tinha que se curvar. E foram os bandidos. Numa sociedade em que não há mais nome-do-pai, nem lei, nem errado, ou melhor, um certo em que se goza por passar por cima; a era do “é ilegal, e daí?”; alguém que desse a cara, olhando pra câmera e dizendo: “nós vamos caçá-los onde estiverem”, vem como uma castração radical; sem manha, sem “se’s”. Que apaziguador, apesar da guerra.
Esses dias escutei sobre esta intervenção, e alguém disse: “as próximas gerações virão, e o tráfico continuará”. Sim, as próximas gerações virão e eu torço pra que nelas existam muitos Coronéis Nascimento ao invés de muitos Mister’s M. M daquela palavra feia, e M de mágica também, que parece fazer o coelhinho branco sumir, de dentro da cartola. Afinal, se a gente apostar que o tráfico não tem fim, estaremos admitindo nossa fraqueza de Gabriela e só nos falta sair cantando: “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...”. Pode até ser que ele não tenha fim, mas se conformar com isso e fazer nada a respeito é nomear algo que não pode ser nomeado, é rotular, é engessar. E nada estaria mais engessado do que o Cristo, de braços abertos, mas boca calada.
Bater continência, se curvar diante da autoridade, prestar conta, amarrar os pontos, pontuar. Reverência, silêncio. Silêncio pra se escutar uma voz, que agora, fala.
Medo. Palavra conhecida de quem tem vivido e observado o estado de tensão da cidade maravilhosa. Mas quem durante a história sentiu medo, estava do lado errado; éramos nós.
O pai perdeu a sua função. Cristo está de braços abertos, calado.
Com o crescimento da violência, gera-se mais violência. Não é à toa a máxima: agressividade gera agressividade.
O Estado perdeu seu poder. Não há um Outro que intervenha; que barre. Aliás, o sujeito não é barrado. Pode-se tudo, a prisão é uma “continuidade sem lei” de onde se pode dar ordens, basta ter um celular, e para conseguí-lo, vale enfiá-lo em certos orifícios. E a palavra é dada. Palavra; de merda.
Foi-se acostumando que todos têm um preço. Mas o preço... é branco.
Aonde está o Coronel Nascimento? Alguém que diga: “auto, lá!”?. Que não seja corruptível, que não tenha preço. Que não venda ideais, ou melhor, que pague o preço por eles.
Com a ação do BOPE, parece que alguém tinha que se curvar. E foram os bandidos. Numa sociedade em que não há mais nome-do-pai, nem lei, nem errado, ou melhor, um certo em que se goza por passar por cima; a era do “é ilegal, e daí?”; alguém que desse a cara, olhando pra câmera e dizendo: “nós vamos caçá-los onde estiverem”, vem como uma castração radical; sem manha, sem “se’s”. Que apaziguador, apesar da guerra.
Esses dias escutei sobre esta intervenção, e alguém disse: “as próximas gerações virão, e o tráfico continuará”. Sim, as próximas gerações virão e eu torço pra que nelas existam muitos Coronéis Nascimento ao invés de muitos Mister’s M. M daquela palavra feia, e M de mágica também, que parece fazer o coelhinho branco sumir, de dentro da cartola. Afinal, se a gente apostar que o tráfico não tem fim, estaremos admitindo nossa fraqueza de Gabriela e só nos falta sair cantando: “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...”. Pode até ser que ele não tenha fim, mas se conformar com isso e fazer nada a respeito é nomear algo que não pode ser nomeado, é rotular, é engessar. E nada estaria mais engessado do que o Cristo, de braços abertos, mas boca calada.
Bater continência, se curvar diante da autoridade, prestar conta, amarrar os pontos, pontuar. Reverência, silêncio. Silêncio pra se escutar uma voz, que agora, fala.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
MEU PÉ DE CARAMBOLA
Adoro árvores. Pequenas e grandes, folhudas e sem folhas, frutíferas ou não, miniaturas e imensas; e quando pequena, não tinha meu pé de laranja lima, mas tinha meu pé de carambola. Ficava na chácara da minha avó, e ele era maravilhoso. Pendurava paninhos das bonecas, levava almofadas lá pra cima, pra horror da minha tia e até filhotinhos de cachorro foram passear lá em cima comigo, confesso. Tínhamos um esquema, meu primo e eu, onde amarrávamos uma corda em um balde, que diga-se de passagem, surrupiávamos da minha avó, e enquanto um ia lá pra cima para ajeitar a corda entre os galhos pra dar apoio e puxar o balde, o outro esperava lá embaixo com o pequerrucho até o “ok” do companheiro. Era o máximo. E como amo cachorros, poder estar na árvore, junto com eles, era praticamente uma consagração. Nos sentíamos abrigados, porque essa era uma árvore folhuda, e tinham lugares que nos acolhiam tão bem, que era possível, literalmente, deitar. Ficávamos lá, a tarde toda, até o intervalo das dezesseis horas, que era a hora do café, exigido rigorosamente esse horário pelo meu avô. Mas, ao lado do meu pé de carambola, havia um pé de figo. Nunca fui muito fã dele, acho que porque quando pequena não gostava muito de figo, mas sabia que minha avó gostava muito. Só que o pé de figo era sempre feinho, (comparado ao meu pé de carambola, é claro), no entanto, ele sempre dava figo. Produzia muito, e minha avó estava sempre às voltas dele.
Esses dias, passei com minha mãe ao lado de um pé de figo. Bonito, viçoso, com folhas dignas de serem guardadas dentro de um livro, aquelas... que ficam velhinhas e quanto mais velhinhas, melhor. Porém, ao passar por ele, escuto minha mãe: “Que pena... não foi podado, não dá frutos”.
Frase de efeito. Assim como as árvores, assim como somos nós.
Interessante como com essa tendência toda do “não trauma” que vivemos hoje, a gente se exime de pontuar coisas e coisas para nossas crianças. Se fez errado, dá-se uma chance; se roubou a primeira vez é porque é réu primário, se bateu no coleguinha é por causa da diferença, se bateu no pai é porque tava nervoso. Se, se, se... não foi nesse contexto, mas o fofo do Djavan escreveu “mas você adora um ‘se’”.... e é verdade. "Mais fácil aprender japonês em braile, do que você decidir se dá ou não”. Se dá ou não uma bronca, se impõe ou não um castigo, se pontua uma frase ou não, se poda ou se deixa crescer solto.
O problema de se crescer solto, é que de solto, não tem nada. Castração parcial ou falta total de castração é sempre... problema. Problema nas escolas, problema em casa, problema social. O limite libera, por mais insano que isto possa parecer; palavra de psicanalista. Sabendo até onde se pode ir, deixa a gente muito mais tranquilo, seguro de que o caminho é aquele e não o outro, cheio de “se’s”, aquele caminho em que parece se estar pisando num campo minado, não sabendo onde está a bomba, pode-se estar pisando em cima de uma.
Ah, sim... meu pé de carambola também era podado, e dava frutos lindos, saborosos e cheios de vida; assim como dizia Cecília: “Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”. Metáfora da árvore. E continuando o parafraseado da mesma Cecília: “ou isto, ou aquilo”.
Esses dias, passei com minha mãe ao lado de um pé de figo. Bonito, viçoso, com folhas dignas de serem guardadas dentro de um livro, aquelas... que ficam velhinhas e quanto mais velhinhas, melhor. Porém, ao passar por ele, escuto minha mãe: “Que pena... não foi podado, não dá frutos”.
Frase de efeito. Assim como as árvores, assim como somos nós.
Interessante como com essa tendência toda do “não trauma” que vivemos hoje, a gente se exime de pontuar coisas e coisas para nossas crianças. Se fez errado, dá-se uma chance; se roubou a primeira vez é porque é réu primário, se bateu no coleguinha é por causa da diferença, se bateu no pai é porque tava nervoso. Se, se, se... não foi nesse contexto, mas o fofo do Djavan escreveu “mas você adora um ‘se’”.... e é verdade. "Mais fácil aprender japonês em braile, do que você decidir se dá ou não”. Se dá ou não uma bronca, se impõe ou não um castigo, se pontua uma frase ou não, se poda ou se deixa crescer solto.
O problema de se crescer solto, é que de solto, não tem nada. Castração parcial ou falta total de castração é sempre... problema. Problema nas escolas, problema em casa, problema social. O limite libera, por mais insano que isto possa parecer; palavra de psicanalista. Sabendo até onde se pode ir, deixa a gente muito mais tranquilo, seguro de que o caminho é aquele e não o outro, cheio de “se’s”, aquele caminho em que parece se estar pisando num campo minado, não sabendo onde está a bomba, pode-se estar pisando em cima de uma.
Ah, sim... meu pé de carambola também era podado, e dava frutos lindos, saborosos e cheios de vida; assim como dizia Cecília: “Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”. Metáfora da árvore. E continuando o parafraseado da mesma Cecília: “ou isto, ou aquilo”.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
O POETA E O TRAÇO
Poeta, que poeta... não fala de amor?
Transmissão da emoção
Transmissão? Tradução?
Não, sensação.
Pra poder traduzir é preciso sentir.
Sentir sem medo, sentir de alma, sentir de corpo.
Corpo pulsional, alma visceral...
Paixão, arrepio
Bem me quer, mal me quer
Bem me quer o céu
Mal me quer o inferno
De um pólo ao outro, em um segundo.
Ouço a voz
Estilhaço de objeto a que invade
Olhar, não o olho
Olhar que revela meu eu, no Outro
Espelho
Reconhecimento
Paixão
Um tanto quanto narcísica
Mas o que seria dela se não fosse o eu?
Vazio
Abismo
Passagem ao ato
Ato
Mato
Fato
Marca
Traço
O mesmo pelo qual me apaixono
O pontinho no nariz pelo qual desapaixono
Traço, laço
Unário, único
Desde aquele tempo em que éramos um só.
Transmissão da emoção
Transmissão? Tradução?
Não, sensação.
Pra poder traduzir é preciso sentir.
Sentir sem medo, sentir de alma, sentir de corpo.
Corpo pulsional, alma visceral...
Paixão, arrepio
Bem me quer, mal me quer
Bem me quer o céu
Mal me quer o inferno
De um pólo ao outro, em um segundo.
Ouço a voz
Estilhaço de objeto a que invade
Olhar, não o olho
Olhar que revela meu eu, no Outro
Espelho
Reconhecimento
Paixão
Um tanto quanto narcísica
Mas o que seria dela se não fosse o eu?
Vazio
Abismo
Passagem ao ato
Ato
Mato
Fato
Marca
Traço
O mesmo pelo qual me apaixono
O pontinho no nariz pelo qual desapaixono
Traço, laço
Unário, único
Desde aquele tempo em que éramos um só.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
O RESGATE IMAGINÁRIO
Hoje, os mineiros estão sendo resgatados.
Depois de sessenta e nove dias de pesadelo, sem a luz do sol, sem os familiares, sem a rotina de antes, um a um, começam a vir para a superfície.
Saem de lá com óculos de sol potentes; porque desacostumaram com a luz do sol, e diga-se de passagem, a gente se acostuma com a escuridão. E isso vale de metáfora. Quantas vezes somos tomados pelos infortúnios da vida, que não são poucos, que esperamos que o próximo evento, será novamente uma cacetada. Quem já não viu um cachorro na rua, que quando nos aproximamos, sai correndo, esperando que vamos enxotá-lo. Já está tão acostumado a ser maltratado, e mal-tratado, que qualquer aproximação, ele vê como ameaça. Nos acostumamos com a escuridão.
No entanto, a escuridão da mina, faz com que cada um tenha que contribuir com sua própria luz. Os grupos são complementares. E estou doida pra saber as táticas que eles inventaram lá embaixo para sobreviver. Um deve ter assumido o lugar de líder do grupo, o outro, de ajudante, o outro, de jogador, o outro de esportista, o outro, de mal-humorado, e que trouxesse desse modo, assunto para os demais, e assim, passaram e sobreviveram a esta prova agonizante.
Viva o Imaginário. Discutia com minha irmã, por estes dias, sobre o valor deste registro na nossa estrutura. Sem o Imaginário, viramos pó, padecemos, psicotizamos. Quando enfrentamos um desafio, se o Imaginário não der conta, se a gente não tiver recurso pra acreditar, pra visualizar, pra preencher, (imaginariamente) nossa falta, ficamos à beira do abismo, surtamos. O Imaginário é, portanto, o próprio resgate. O que nos tira da REALidade muitas vezes insuportável; o que nos permite dar um passo a mais, mesmo sem a menor garantia. Acreditar no encontro, como dizia Vinícius... que “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Desencontro, depois do encontro, mesmo depois de perdido, mas resgatado.
Quando estamos lá embaixo, no próprio abismo, se não tivermos esse recurso, que enlaça, que se junta com o simbólico, perdemos o rumo, o eixo, a estrutura. Ficamos perdidos, mesmo achados; na escuridão, mesmo no claro; enterrados, mesmo na superfície. Nos acostumamos com a escuridão. E ela toma conta, se não tomarmos conta dela. Apagar a luz, mas depois acendê-la. Nem que imaginariamente.
Depois de sessenta e nove dias de pesadelo, sem a luz do sol, sem os familiares, sem a rotina de antes, um a um, começam a vir para a superfície.
Saem de lá com óculos de sol potentes; porque desacostumaram com a luz do sol, e diga-se de passagem, a gente se acostuma com a escuridão. E isso vale de metáfora. Quantas vezes somos tomados pelos infortúnios da vida, que não são poucos, que esperamos que o próximo evento, será novamente uma cacetada. Quem já não viu um cachorro na rua, que quando nos aproximamos, sai correndo, esperando que vamos enxotá-lo. Já está tão acostumado a ser maltratado, e mal-tratado, que qualquer aproximação, ele vê como ameaça. Nos acostumamos com a escuridão.
No entanto, a escuridão da mina, faz com que cada um tenha que contribuir com sua própria luz. Os grupos são complementares. E estou doida pra saber as táticas que eles inventaram lá embaixo para sobreviver. Um deve ter assumido o lugar de líder do grupo, o outro, de ajudante, o outro, de jogador, o outro de esportista, o outro, de mal-humorado, e que trouxesse desse modo, assunto para os demais, e assim, passaram e sobreviveram a esta prova agonizante.
Viva o Imaginário. Discutia com minha irmã, por estes dias, sobre o valor deste registro na nossa estrutura. Sem o Imaginário, viramos pó, padecemos, psicotizamos. Quando enfrentamos um desafio, se o Imaginário não der conta, se a gente não tiver recurso pra acreditar, pra visualizar, pra preencher, (imaginariamente) nossa falta, ficamos à beira do abismo, surtamos. O Imaginário é, portanto, o próprio resgate. O que nos tira da REALidade muitas vezes insuportável; o que nos permite dar um passo a mais, mesmo sem a menor garantia. Acreditar no encontro, como dizia Vinícius... que “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Desencontro, depois do encontro, mesmo depois de perdido, mas resgatado.
Quando estamos lá embaixo, no próprio abismo, se não tivermos esse recurso, que enlaça, que se junta com o simbólico, perdemos o rumo, o eixo, a estrutura. Ficamos perdidos, mesmo achados; na escuridão, mesmo no claro; enterrados, mesmo na superfície. Nos acostumamos com a escuridão. E ela toma conta, se não tomarmos conta dela. Apagar a luz, mas depois acendê-la. Nem que imaginariamente.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
ANGÚSTIA
Qual seria o próximo tema da coluna? Pergunta-me o professor. Respondo, então: angústia! Já que tenho falado e escrito sobre isso, nada mais justo do que falar um pouco disso que não pode ser falado.
A angústia é aquilo que acarreta a falta de palavras. Aquele afeto de desprazer, que se manifesta na gente, em lugar de um sentimento inconsciente, na espera de algo que a gente não pode nomear.
O que te angustia? A primeira sensação é que a gente não pode descrever o que nos provoca angústia. Porém, a gente sente. Sente no corpo. Corpo erógeno, corpo de bordas, corpo pulsionalizado. A gente sente um aperto no peito, uma sensação ruim, um pressentimento. Pré-sentimento. Há toda uma tentativa, algumas vezes, bem sucedida, de aplacar, de fazer desaparecer qualquer manifestação de angústia. Vemos isso no universo médico, na televisão, nas livrarias, no dia-a-dia. Não se suporta a escuta dela. Quando se pergunta: “tudo bem com você?”; acostumamos o ouvido a escutar: “tudo, e você?”. Cruzamos os dedos para que a resposta seja essa e que se a pessoa de fato não estiver com tudo bem, que não seja conosco que ela divida.
Aquilo que a palavra não alcança, aquilo que parece não ter remédio. Mas, como toda indústria farmacológica de tola não tem nada, inventam a cada dia “soluções” pra abafar esse “probleminha”. Novos medicamentos, novas fórmulas, novos pacotes, novas soluções; tudo no estilo: 3 em 1. “Acabe com a angústia, o mal-estar e o cansaço!”. “Leve, leve!!! É imperdível!”. Tudo isso pra evitar o surgimento deste afeto.
Grande oferta de diagnósticos e medicamentos, novos gadgets de um mercado que promete solução para a inquietação. Inquietação porque há algo que não consegue se aquietar e ao mesmo tempo, que não se consegue falar. Há um convite em gozar com a angústia, há uma domesticação dela, como diz Melman. E eles mudam de nome, todos os dias. Não é a toa que a indústria farmacológica cresceu, cresce e cresce a cada dia. Fatia gordinha do mercado, e que talvez esteja tão gorda porque se alimenta da gente. Saída que tampona, que disfarça e que de des/angústia, não tem nada.
O que a gente pode falar da angústia? Que não se pode falar dela. Que ela vai além do que a palavra pode circunscrever. No entanto, sabemos que ela é um afeto, o afeto que não engana. A angústia é da ordem de uma certeza, o que a torna ainda mais difícil de suportar. O que nos deixa aniquilados.
A angústia que sentimos não é que aquilo que a gente sente na iminência de que algo vai faltar. Pra isso, a gente conta com outros recursos, faz outros laços. A angústia é aquela que a gente sente quando se vê como algo, não como alguém. E no sentido do “como” alguém, comidos, engolidos. Pura carne, puro objeto. Talvez aquela carne, que já virou almôndega, e que alimenta os cofrinhos da fatia gordinha, lembra? Quando somos reduzidos a um pedaço, quando o Outro busca a minha perda, porque tenta restituir sua própria falta. Quando sou colocado neste lugar, desapareço como sujeito, e surjo, como puro objeto. Fiapo de carne no dente do Outro. Diante disso: silêncio.
A angústia é aquilo que acarreta a falta de palavras. Aquele afeto de desprazer, que se manifesta na gente, em lugar de um sentimento inconsciente, na espera de algo que a gente não pode nomear.
O que te angustia? A primeira sensação é que a gente não pode descrever o que nos provoca angústia. Porém, a gente sente. Sente no corpo. Corpo erógeno, corpo de bordas, corpo pulsionalizado. A gente sente um aperto no peito, uma sensação ruim, um pressentimento. Pré-sentimento. Há toda uma tentativa, algumas vezes, bem sucedida, de aplacar, de fazer desaparecer qualquer manifestação de angústia. Vemos isso no universo médico, na televisão, nas livrarias, no dia-a-dia. Não se suporta a escuta dela. Quando se pergunta: “tudo bem com você?”; acostumamos o ouvido a escutar: “tudo, e você?”. Cruzamos os dedos para que a resposta seja essa e que se a pessoa de fato não estiver com tudo bem, que não seja conosco que ela divida.
Aquilo que a palavra não alcança, aquilo que parece não ter remédio. Mas, como toda indústria farmacológica de tola não tem nada, inventam a cada dia “soluções” pra abafar esse “probleminha”. Novos medicamentos, novas fórmulas, novos pacotes, novas soluções; tudo no estilo: 3 em 1. “Acabe com a angústia, o mal-estar e o cansaço!”. “Leve, leve!!! É imperdível!”. Tudo isso pra evitar o surgimento deste afeto.
Grande oferta de diagnósticos e medicamentos, novos gadgets de um mercado que promete solução para a inquietação. Inquietação porque há algo que não consegue se aquietar e ao mesmo tempo, que não se consegue falar. Há um convite em gozar com a angústia, há uma domesticação dela, como diz Melman. E eles mudam de nome, todos os dias. Não é a toa que a indústria farmacológica cresceu, cresce e cresce a cada dia. Fatia gordinha do mercado, e que talvez esteja tão gorda porque se alimenta da gente. Saída que tampona, que disfarça e que de des/angústia, não tem nada.
O que a gente pode falar da angústia? Que não se pode falar dela. Que ela vai além do que a palavra pode circunscrever. No entanto, sabemos que ela é um afeto, o afeto que não engana. A angústia é da ordem de uma certeza, o que a torna ainda mais difícil de suportar. O que nos deixa aniquilados.
A angústia que sentimos não é que aquilo que a gente sente na iminência de que algo vai faltar. Pra isso, a gente conta com outros recursos, faz outros laços. A angústia é aquela que a gente sente quando se vê como algo, não como alguém. E no sentido do “como” alguém, comidos, engolidos. Pura carne, puro objeto. Talvez aquela carne, que já virou almôndega, e que alimenta os cofrinhos da fatia gordinha, lembra? Quando somos reduzidos a um pedaço, quando o Outro busca a minha perda, porque tenta restituir sua própria falta. Quando sou colocado neste lugar, desapareço como sujeito, e surjo, como puro objeto. Fiapo de carne no dente do Outro. Diante disso: silêncio.
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